Pesquisar notícia
segunda,
27 set 2021
PUB
Sociedade

Reportagem | Nascer Mulher, renascer Homem

11/10/2019 às 00:00
Partilhar nas redes sociais:
Facebook Twitter

E se nascesse no corpo errado? Se vivesse uma vida preso a um corpo que não representava aquilo que sentia ser a sua identidade? Esta é a história de Filipe (nome fictício). É a história do medo, da discriminação, mas também da força, da vontade e da mudança – que é recente e ainda incompleta. Não importa onde mora nem aquilo que faz. Importa, sim, que está mais perto de ser feliz.

 

16 de novembro de 2018 foi o dia em que tudo mudou. Ao fim de uma vida a reprimir os sentimentos, a esconder o medo e a aguentar a discriminação, chegara finalmente o dia ‘D’ para Filipe (nome fictício).

“Tive medo de morrer… vejo muita gente na mesma situação cuja preocupação é a nível estético, o corpo ficar perfeito. A mim preocupou-me estar em risco de vida, poder morrer”.

Filipe é direto, fala sem receios. Não gosta de rótulos. Considera-se uma “pessoa normal” e, como qualquer ser humano, tem “muita dificuldade em mudar. Há algo lá dentro que…” parece não querer deixar ir adiante.

O medo da transformação e daquilo que os outros poderão pensar marcaram sempre presença na sua vida. Ao ponto de, após cinco anos de luta psicológica e consciencialização de si mesmo, ter pensado em desistir: “Eu não queria mudar”. O truque que adotou foi simplesmente “deixar de pensar”.

 

“Não é uma coisa do dia para a noite (...) Isto andou sempre comigo só que era algo muito profundo. Eu tinha consciência disso, mas depois com o passar do tempo, com a educação e com as normas da sociedade, reprimes isso (...) nem te apercebes de que é isso que sentes, porque nem tens essa liberdade" 

 

A transexualidade manifestou-se inocentemente na infância de Filipe através de algo tão simples como o ato de brincar.

“Aos 5 anos eu já sabia. Eu tinha uma Barbie e tinha um Ken, e revia-me sempre no Ken, não gostava muito da Barbie. O Ken era aquele que eu via ser no futuro”, explica Filipe, que admite que na altura já tinha noção de que queria um corpo igual ao de um homem.

A inocência da infância, porém, fez com que não fosse dada a importância devida e com que “deixasse as coisas andar”.

“Não é uma coisa do dia para a noite. No meu caso, isto andou sempre comigo só que era algo muito profundo. Eu tinha consciência disso, mas depois com o passar do tempo, com a educação e com as normas da sociedade, reprimes isso, e depois isso torna-se tão profundo que nem te apercebes de que é isso que sentes, porque nem tens essa liberdade. Ficas reprimido”, revela.

Filipe era Filipa (nome fictício). Viveu quase 30 anos preso num corpo que não se coadunava com a sua identidade de género. Foram mais de duas décadas em que escondeu o medo, em que reprimiu sentimentos e em que sofreu discriminação por ser, aos olhos de outras pessoas, “maria-rapaz” e por “sempre me ter vestido como um rapaz”. O facto de viver numa cidade do interior do país, onde temas como este são ainda, aos olhos de muitos, um “tabu”, também não abonou a seu favor.

Mas nem as tentativas de difamação que sofreu – e que ainda hoje existem por parte de “pessoas que me conheciam há muito tempo” - o impediram de procurar vontade e arrecadar esperança: “Esses comentários nunca me impediram, conseguia abstrair-me apesar de tudo. Acho que a minha vida toda foi abstração, não pensava nos problemas”.

 

“Eu precisei de muita ajuda, porque eu não aceitava aquilo que era, não aceitava a realidade (...) havia fases em que ria e outras em que chorava. O chorar porque pensava 'não quero passar por isto' e o rir porque lá no fundo era aquilo que me fazia feliz"

 

A aceitação daquilo que era foi feita “com o tempo”. “Para mim, no processo, o mais difícil foi a aceitação, o ter de mudar. É o pensar que tenho o mundo inteiro contra mim e eu não vou ter força. Depois de tanto tempo reprimido é muito difícil escavar e chegar lá ao fundo e encarar a realidade com aquilo que nós sentimos”, desabafa.

Ao longo de todo o processo de mudança, Filipe teve muitos medos. No entanto, não teve medo de pedir ajuda.

“Eu precisei de muita ajuda, porque eu não aceitava aquilo que era, não aceitava a realidade”, admite.

Foi em finais de 2014 que deu o passo em frente e foi à primeira consulta de psicologia.

“Eu não disse a verdade à psicóloga. Disse que era homossexual. Depois, quando contei a verdade, encaminhou-me para a sexóloga e psiquiatra. (…) Numa das primeiras consultas de psiquiatria a que fui, no Porto, perguntaram-me o que é que eu queria e eu só disse que havia fases em que ria e outras em que chorava. O chorar porque pensava ‘não quero passar por isto’ e o rir porque lá no fundo era aquilo que me fazia feliz”.

Para além do sofrimento que Filipe sentia ao viver com este segredo, faltava ultrapassar um obstáculo ainda maior: contar à família.

 

“Uma coisa que eu não me esqueço foi, quando eu ia para ser operado, a minha avó, com 103 anos, dizer-me que rezava por mim (…) Ela disse que eu sempre quis ser um rapaz”

 

“As primeiras pessoas que souberam foram duas amigas minhas que são psicólogas e que me ajudaram. À minha mãe liguei-lhe e contei-lhe por telemóvel. Mas primeiro contei-lhe cara a cara que era homossexual e ela aceitou. E depois de já ter tido consulta [de psiquiatria] é que contei à minha mãe a verdade e para ela foi difícil. Sugeri-lhe que fosse a um psicólogo e ela só me dizia que queria ter uma rapariga”.

O tempo foi o melhor aliado de Filipe e da sua família. A compreensão e as reações positivas que obteve à medida que foi contando a amigos mais próximos deram-lhe a motivação de que precisava até que chegou o dia.

“Fiz duas operações, uma a seguir à outra. A 16 de novembro de 2018”, conta-nos Filipe, que vai ficar para sempre com esta data presente na sua memória como o dia em que ficou um bocadinho mais perto de ser quem sonhava.

“Uma coisa que eu não me esqueço foi, quando eu ia para ser operado, a minha avó, com 103 anos, dizer-me que rezava por mim (…) Ela disse que eu sempre quis ser um rapaz”.

Filipe agarra-se também à fé para atenuar a dor. Uma dor que é mais psicológica do que física, numa luta que é diária e ainda perdura, uma vez que o processo está incompleto: ainda falta realizar uma operação.

E “a espera é longa”, apesar de Filipe reconhecer melhorias a nível nacional: “Agora as coisas estão diferentes, as leis mudaram e a transexualidade é algo que está mais avançado”.

Mas há sempre algo mais a fazer e Filipe defende que a aposta na formação de auxiliares e professores, nas escolas, é “muito importantíssima” para evitar “situações discriminatórias por parte de professores”.

“Falta formar pessoas nestas áreas. Se houver pessoas especializadas, os transexuais podem ser apoiados de forma correta”, reflete.

 

“Nós queremos ser vistos como pessoas normais. (...) Não têm de ser colocados rótulos. As pessoas não podem ser tão ignorantes, têm que tentar compreender o outro. O ser transexual é aquilo que tu és. Não é um modelo, não é algo que está definido"

 

Apoio. É outra das palavras-chave que Filipe diz faltar, num processo que “é transversal à vida da pessoa. É a relação com os outros, a relação com ele e falta mais apoio e mais associações. Ouvimos falar muito nos homossexuais e nos transexuais não”.

As redes sociais são um refúgio e uma mão estendida entre pessoas que lidam e passam por estas situações. Filipe admite que “as redes sociais têm sido muito importantes”, chegando ao ponto de serem “uma parte do processo, que me fez andar com isto para a frente e realmente me ajudou a perceber aquilo que sentia foi ter dois amigos que também são transexuais e eles é que me ajudaram a mexer com os sentimentos, a aceitar, porque quando nós sentimos algo e não nos identificamos com ninguém é muito mais difícil encarar isso. E quando temos alguém que nos compreende é muito mais fácil”.

Atualmente, Filipe estuda e está simultaneamente à procura de emprego. Faz questão de separar bem as realidades: “Uma coisa é a vida privada e outra é a vida profissional. E no emprego ou na escola não temos de dizer aquilo que somos e pelo que passámos porque isso é da esfera privada”.

E deixa uma mensagem: “Nós queremos ser vistos como pessoas normais. É como uma pessoa que nasceu sem um braço ou sem uma perna, ou cego ou surdo. A pessoa é diferente, realmente, mas tem que ser considerada normal, como as outras pessoas. Não têm de ser colocados rótulos. As pessoas não podem ser tão ignorantes, têm que tentar compreender o outro. O ser transexual é aquilo que tu és. Não é um modelo, não é algo que está definido”.

Ainda com caminho pela frente, ou, como gosta de dizer, “incompleto”, Filipe admite sentir-se melhor mas tem noção de que “psicologicamente ainda não estou estável”. Mas de uma coisa está certo: “Vou viver melhor quando tudo estiver terminado… e tenho força para ir até ao fim”.

Nesta viagem ao passado e ao futuro que há-de vir, a felicidade para Filipe tornou-se “mais genuína” e não tem dúvidas de que “se voltasse atrás faria tudo na mesma. Não é fácil mas é possível. Hoje sou uma pessoa mais feliz, mais verdadeira. Ainda incompleto, mas mais feliz”.

Hoje, Filipe deixou de ser a Barbie e passou a ser o Ken, mudou de corpo e de nome, mas continua a ser “a mesma pessoa de sempre”.


OS DADOS E AVANÇOS DA TRANSEXUALIDADE EM PORTUGAL

Dados sobre a transexualidade são ainda escassos e relativamente recentes no nosso país. Contudo, este cenário parece estar a alterar-se. 

22  jovens mudaram de nome e sexo no cartão de cidadão em 2019

Os números mais recentes do Instituto de Registo e Notariado dão conta de que em 2019 já 22 jovens entre os 16 e os 18 anos mudaram de nome e de sexo no cartão de cidadão (19 raparigas pediram para ter nome masculino e três rapazes pediram alteração para nome feminino). Número que se junta aos 11 jovens de 2018, ano em que entrou em vigor a lei da identidade de género, que permite, desde agosto do ano passado, o direito à autodeterminação da identidade e expressão de género e a mudança da menção do nome e do sexo no registo civil a partir dos 16 anos (mediante relatório médico que ateste a vontade dos jovens).

 

135  pessoas fizeram pedidos para alterar o nome e o género

Só em 2019, já 135 pessoas com idades entre os 16 e os 58 anos fizeram pedidos para alterar o nome e o género no cartão do cidadão. O maior número de pedidos foi recebido em Lisboa: 39 pessoas.

Segundo a Associação ILGA Portugal - uma instituição particular de solidariedade social que trata, entre outros, o tema da transexualidade – estima-se que “um homem em cada 12.000 sente que é uma mulher e uma menor proporção de mulheres sente que é um homem”.

Um estudo da mesma associação revela que 91% dos inquiridos que mudaram de sexo legal e nome próprio indicaram que a mudança teve “um impacto positivo ou muito positivo na sua felicidade, bem-estar psicológico e bem-estar social”.

Também no acesso ao trabalho e manutenção do emprego, acesso a serviços públicos, segurança na via pública, vida familiar e vida conjugal notaram impacto positivo.

Mas a discriminação existe. Por isso, em 2013 o Código Penal foi alterado de modo a prever que as motivações transfóbicas sejam relevantes para a qualificação do crime de homicídio ou de ofensa à integridade como qualificados. Foi também proibida a promoção de ódio, violência, difamação, injúria ou ameaça com base na identidade de género.

O passo em frente mais recente dado em Portugal aconteceu com o despacho publicado em agosto deste ano, que estabelece “o direito à autodeterminação da identidade de género e expressão de género e à proteção das características sexuais de cada pessoa”. Uma lei que se dirige às escolas com o propósito de facilitar a integração e igualdade de alunos trans e intersexo e que se junta à inclusão da identidade de género, em 2012, como categoria suscetível de discriminação e, por isso, protegida no Estatuto do Aluno: “O aluno tem direito a (…) ser tratado com respeito e correção por qualquer membro da comunidade educativa, não podendo, em caso algum, ser discriminado em razão da origem étnica, saúde, sexo, orientação sexual, idade, identidade de género (…)”.

Todos os avanços são “importantes e urgentes” para pessoas como o Filipe, que reconhece que “a transexualidade é algo que está mais avançado” mas há ainda trabalho a fazer e não deixa de apontar um problema óbvio: “a burocracia é o principal obstáculo”.

  

Reportagem: Ana Rita Cristóvão