Reportagem| “Eu só queria que me deixassem em paz”

Sociedade 2020-02-25
Créditos: Carolina Ferreira
Créditos: Carolina Ferreira

Maria começou a ser vítima de bullying aos 9 anos. Foi parar ao hospital, andou a antidepressivos e começou do zero. Mudou de escola mas também a violência mudou de forma. Hoje, a jovem adulta não quer justiça, apenas tomar as rédeas da sua vida.

 

“Houve um dia em que eu cheguei à escola de manhã e eles já lá estavam à minha espera. Eu cheguei sozinha e não estava lá mais ninguém e eles viram-me e começaram a correr atrás de mim, fecharam-me na sala dos contínuos e começaram-me a bater. Eu pedi para me deixarem sair que estava cheia de dores porque me estavam a bater com muita força”.

Este é um dos incontáveis momentos que Maria (nome fictício) não esquece. Lembra-se de cada pontapé, de cada nódoa negra, de cada momento de aflição que ainda hoje a assombra de cada vez que tem pesadelos ou que passa na rua por quem lhe deixou cicatrizes que jamais se vão embora.

“Depois deixaram-me trancada lá dentro e fugiram, até que chegou uma funcionária que pensou que eu me estava a esconder na brincadeira e me abriu a porta”, diz-nos Maria, que, dominada pelo medo, não contou a ninguém o que se passara.

Maria tinha 9 anos, andava na escola primária, e isto foi “só o início”.

 

“Eu sentia que se contasse ia ser pior, porque depois os meus pais iam à escola - e o meu pai não é de se ficar - e ainda podia acontecer algo que eu não queria... eu só queria que me deixassem em paz”

 

Tinha algumas amigas que sabiam da situação e que a ajudaram a esconder-se quando podiam, mas não denunciaram aquilo que se passava por medo das consequências que daí pudessem advir.

Foi essa a razão que levou Maria a nunca contar aos pais que era vítima de bullying. “Eu sentia que se contasse ia ser pior, porque depois os meus pais iam à escola - e o meu pai não é de se ficar - e ainda podia acontecer algo que eu não queria... eu só queria que me deixassem em paz”.

E assim, sem nunca contar à família, Maria conseguia encobrir a situação: “os meus pais não se aperceberam muito porque eu na altura andava na dança, nos escuteiros, e também fartava-me de correr e fazer exercício e quando eles me viam com alguma nódoa negra eu dizia que tinha sido a brincar na escola ou na dança”.

E nem momentos como o “acordar a meio da noite aos gritos” e os ataques de pânico que surgiam após fases de paralisia do sono levaram os pais a desconfiar daquilo que se passava.

 

“Foi o momento que me deixou mais marca. Depois de passar dois anos em que me batiam quase todos os dias e em que usavam jogos mentais, colapsei"

 

A corda foi esticando até que chegou o dia em que as nódoas negras diárias disfarçadas com passos de dança e corridas na escola deram lugar ao esgotamento físico: como se do nada fosse, Maria desmaiou na casa da avó e só acordou três dias depois.

“Foi o momento que me deixou mais marca. Depois de passar dois anos em que me batiam quase todos os dias e em que usavam jogos mentais, colapsei na cozinha da minha avó. São memórias suprimidas, sei disto porque me contaram. Fui para o hospital e só acordei ao fim de três dias, não me lembro de nada”.

Quando acordou, Maria tinha mais uma batalha pela frente: falar. “Eu não respondia a ninguém, eu não falava, então o médico mandou-me para o psicólogo e daí passei para o psiquiatra. Disse que estava com uma depressão profunda e que tinha de me pôr a antidepressivos. Andei quatro anos a antidepressivos”.

À partida, as coisas melhorariam a partir daqui. Maria passou para o 5º ano e mudou de escola. Foi no Liceu, em Abrantes, que conheceu pessoas novas e que teria, à partida, uma nova oportunidade de começar do zero.

Mas mudaram as pessoas e mudou também o bullying. Os atos deram lugar às palavras, as marcas físicas deram lugar às marcas psicológicas.

“Fiz uma amiga que me começou a bater, mas nem tanto, era mais bullying psicológico que me fazia. Se eu tentasse fazer amigos novos, ela ficava com ciúmes e começava a espalhar mentiras sobre mim, para eu não ter amigos. Fazia o mesmo se eu tentasse fazer algo sem a permissão dela... isto ao ponto de eu não ter amigos nenhuns”.

 

“Eu sentia que se contasse ia ser pior (…) só queria ficar no meu canto, não queria que houvesse atenções viradas para mim”

 

A história repetia-se mas com contornos diferentes. Maria não fez queixa. Diz que “só queria ficar no meu canto, não queria que houvesse atenções viradas para mim”. Ao mesmo tempo, não entendia o porquê de isto lhe estar a acontecer. “Porquê? Eu não fazia mal a ninguém. Só me dava para chorar e tinha ataques de pânico - que ainda hoje tenho em situações onde que não me sinto à vontade”.

Ainda hoje, Maria não encontra explicações para ter sido um autêntico “saco de boxe”. Ainda hoje, reina a desconfiança sempre que tenta fazer novos amigos. Ainda hoje, não consegue sentir raiva nem desprezo por quem lhe causou tal sofrimento. Porque seguiu e segue à risca os ensinamentos dos pais: “lá por uma pessoa ser cruel contigo não quer dizer que o mundo inteiro seja, não quer dizer que tu tenhas ser cruel de volta. Eu sempre fui assim, porque não sou de responder com crueldade, não vou ser da mesma maneira que eles, vou ser uma pessoa melhor, porque ser assim não me ia fazer bem. Eu limitei-me a ser como os meus pais me ensinaram”.

Hoje, Maria tem 22 anos. Começou novamente do zero na mesma cidade que a viu passar por todos aqueles momentos que jamais apagará da memória. Hoje, passa pelos mesmos locais onde viveu um passado de aflição, mas desta vez com um sorriso no rosto e acompanhada por amigos novos que a faculdade lhe está a dar. Hoje, em vez de se esconder, faz questão de cumprimentar todos os conhecidos por quem passa na rua.

Admite que se apercebe agora da gravidade daquilo pelo qual passou mas assume-se “tão moída e demorou tanto tempo para voltar a construir-me como eu queria que...” acaba por não ter a vontade de se revoltar ou sequer de exigir justiça.

Porém, afirma que se tudo isto acontecesse nos dias de hoje “já não ficava calada, porque eu sei o quanto custa sofrer em silêncio. Agora tenho a noção de que se tivesse dito alguma coisa se calhar não tinha chegado ao ponto a que cheguei”.

“Agora, já não há nada que me possam dizer ou fazer que já não me tenham dito ou feito antes, já não tem um impacto tão grande, já não me incomoda. De certa maneira, aquilo tornou-me uma pessoa mais forte e é ao facto de eu ter superado isso que eu me agarro nos momentos mais vulneráveis”.

Não há borracha mágica que apague aquilo pelo qual passou, mas Maria tem hoje na mão as rédeas da sua vida e o poder de “seguir em frente, de me adaptar, sem deixar que os traumas ditem aquilo que eu vou ser ou fazer na vida”.


O BULLYING É CRIME?

Na última década, o bullying deixou o assento de assunto quase tabu para assumir um lugar de relevo na sociedade. Uma palavra que define uma forma de agressão entre pares (crianças e jovens) que assume um padrão continuado ao longo do tempo, em que as motivações do agressor são difíceis de compreender mas em que os objetivos são claros: causar danos à vítima. E se os tempos avançam, os modos de concretizar a violência também: desde a agressão física, os insultos, até às ameaças via Internet (cyberbullying), atingindo tanto raparigas como rapazes.

Em 2017, Portugal constava em 15º lugar na lista de países com mais relatos de bullying, à frente de países como os Estados Unidos.

Já em 2019, um inquérito da OCDE revelava que o bullying nas escolas portuguesas tinha sofrido uma expressiva descida para metade em cinco anos (de 15,3% em 2013 para 7,3% em 2018).

Apesar de alguns comportamentos poderem ser punidos pela lei em vigor, o bullying não se encontra tipificado enquanto crime no Código Penal Português. Em 2010, foi apresentada uma proposta de lei de criminalização do bullying escolar à Assembleia da República, iniciativa legislativa que acabou por prescrever.

 

O MITO DO “IGNORA QUE ISSO PASSA”

Como perceber se um filho está a ser vítima de bullying? Porque é que a criança mantém o silêncio? Que sequelas perduram no tempo e que impacto têm estes episódios nos relacionamentos futuros?

Fomos procurar respostas a estas questões junto da psicóloga clínica Sofia Loureiro, pós-graduada em psicoterapia com especialização na área de crianças e adolescentes. Conta-nos que hoje “as crianças já vão falando mais, mas não tanto quando deveriam. Quando nos chegam às mãos, a situação já vem com algum tempo e muitas vezes é porque aconteceu algo em que o sofrimento já era tão grande...”, diz, reiterando que “quanto mais inicialmente se conseguir intervir melhor”.

O silêncio:

“As crianças não contam a ninguém muitas vezes porque estão a ser ameaçadas. O típico 'se contares a alguém vai ser pior'. Outras vezes tem a ver com a vergonha. Incorporam internamente que a responsabilidade é sua, que não são merecedores de outro tipo de tratamento. Depois têm medo: das represálias, que os pais não acreditem, que se lhes contarem ainda sejam mais humilhados... é uma série de fatores que faz com que a criança viva com esta violência em segredo, o que é uma tortura interior”, diz a psicóloga.

O papel do psicólogo:

“O psicólogo é importante porque consegue estabelecer uma relação de confiança e dar garante à criança de que ela não vai ser prejudicada, antes pelo contrário, se conseguir confiar e revelar o seu segredo. Mas nas questões do bullying todas as pessoas que interagem e estão na comunidade a viver com a criança têm um papel fundamental, não só na prevenção mas também na deteção e na intervenção, para impedirem que as coisas continuem”. Isto porque, relembra a psicóloga, “as crianças não vivem em sítios isolados, o bullying não acontece só na escola”.

Os sinais de todos os dias:

“Deve-se manter uma comunicação aberta e atenta sobre todas as áreas das vidas dos nossos filhos e perceber que tipo de amigos têm, que brincadeiras fazem, o que é que gostam mais/menos de fazer na escola, como é que se chamam os amigos, e se mantivermos este tipo de acompanhamento mais facilmente nos vamos apercebendo se algo não está a correr bem”, diz a especialista que lembra que o bullying é também sinónimo de “discriminação, isolamento social, aspetos psicológicos”. Aí, importa ter em conta “o tipo de relacionamento, se a criança é isolada saber o porquê, o tipo de gozo que não é uma brincadeira e que pode fazer com que a outra pessoa se sinta humilhada e minimizada”.

Já relativamente às marcas físicas, Sofia Loureiro diz que é preciso ter noção “se os nossos filhos em casa não são crianças muito traquinas e não costumam cair, se no tipo de brincadeiras que têm em casa ou com as crianças com quem nós assistimos não acontece saírem tantas vezes magoadas”. Já no que toca a marcas físicas, destaca a importância dos profissionais de enfermagem e medicina legal na identificação de zonas do corpo onde as “lesões não são resultantes de quedas”.

Ignorar não resolve:

“O falar tanto do bullying é muito importante porque as pessoas têm informação, mas não é suficiente para prevenir: a informação tem que andar de mãos dadas com a ação e com a mudança de postura e de cultura e de papéis que assumimos no dia a dia”, explica a especialista que considera um “mito” a típica expressão 'ignora que isso passa'. “Se ignorar fizesse com que passasse não havia bullying já, porque é o que muita gente faz é ignorar”.

É possível esquecer?:

“Há pessoas que conseguem ultrapassar, gerir e resolver. Óbvio que não se esquecem mas isso não impede que consigam seguir a sua vida com qualidade e adaptada àquilo que são as exigências do nosso mundo”, explica a psicóloga que, da sua experiência, relata que “a maior parte das pessoas acaba por conseguir ter relações gratificantes”.

Mas nem tudo são rosas e há, por outro lado, “pessoas que, pela frequência, gravidade [dos atos] e por fatores individuais e sociais, ficam realmente com questões para o resto da vida”.

Há ainda vítimas que passam por momentos de “dificuldade em confiar e em acreditar que podem ser gostadas como são, sem serem criticadas”, sendo comum o sentimento de “raiva e uma vontade de serem vingados, o que é perfeitamente natural em determinada fase deste processo, que é quase um processo de luto”.

 

Ana Rita Cristóvão