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Sociedade

Ortiga/Mação: “Só temos esta maneira de fazer lampreia e não queremos outra”

14/02/2019 às 00:00
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Está junto à Barragem de Belver “já passa de 40 anos”. Herdou dos sogros o restaurante que lhe preenche a vida e o tempo. Chama-se Helena Matias mas... é a Lena. Sem apelido. “Ponha aí a Lena da Barragem”, pois é assim que toda a gente a conhece. Tem 75 anos e diz, com um brilho no olhar, “agora já é a minha filha que toma conta disto. Sai à avó, tem muito boa mão para a cozinha”.

E foi no Restaurante “A Lena” que a encontrámos. Junto dos tachos e panelas, a preparar mais um almoço para os convivas que haveriam de começar a chegar.

Mas o que nos levou até àquele pequeno paraíso, junto da Praia Fluvial de Ortiga, foi o Festival da Lampreia. A Câmara Municipal de Mação volta a apostar no certame que chegou mesmo a suspender no ano passado, devido às ocorrências de poluição no rio Tejo.

Em 2019, o Festival da Lampreia está de regresso de 1 de março a 14 de abril e a Câmara considerou haver condições para a realização do Festival.

Felizmente sim. O rio está saudável, há boas indicações por parte dos pescadores e dos operadores da zona e as condições que levaram à suspensão do Festival no ano passado, devido à não qualidade da água no rio, estão ultrapassadas e há vontade dos restaurantes em avançarem. Vamos fazê-lo até porque é uma forma e um sinal de que o rio Tejo está outra vez em condições de ser usufruído, quer para o banho quer para a pesca. É também uma altura de promovermos o concelho e a nossa gastronomia a quem nos venha visitar”, esclareceu o presidente da Câmara Municipal, Vasco Estrela.

Mas voltemos aos tachos e às panelas e a quem os comanda. Já com três gerações, o restaurante “A Lena” tem casa feita “mas o ano passado esteve quase escangalhada, derivado à situação da água do Tejo”.

Levámos uma quebra muito grande o ano passado. Notou-se e de que maneira”, afirma a proprietária. Os clientes tiveram receio que o peixe e a lampreia ali confecionados fossem apanhados no Tejo, “mas não era”. No entanto, confessa compreender porque “se calhar, eu também ficava” preocupada.

Mas este ano a água do rio “está como nunca a vi” e o Festival está de volta, “o que é muito bom porque os clientes foram embora no ano passado e ninguém gosta de perder clientes. Com o Festival, pode ser que voltem, sempre vêm mais meia dúzia, e é uma ajuda por parte da Câmara, que ajuda muito os seus munícipes”.

Falámos das excursões que se faziam até Ortiga para se comer lampreia. “Mas isso foi gente que já morreu. A geração mais nova não está a enveredar muito por isto. Vai havendo quem goste mas não é, nem de longe nem de perto, como a geração antiga. Com a lampreia, ou se ama ou se odeia”.

E no restaurante “A Lena” não há lugar a “modernices”. “Cada um faz a lampreia como quiser mas nós só temos esta maneira de fazer e não queremos outra. Já era assim que a minha sogra fazia, é assim que eu faço e a minha filha também”, afirma Helena Matias.

Atualmente, já se come lampreia no restaurante da barragem mas são provenientes da Figueira da Foz e do rio Zêzere pois “para o Tejo ainda é cedo, só de fevereiro em diante”. No auge da temporada, “chegam a vir de França”.

Mas do Tejo percebe Francisco Pinto, genro da “Lena da Barragem”. Pescador há mais de 30 anos, vive o Tejo “desde que nasci”. Confirma que a água está boa mas que “já não é nada como era antigamente”. Atualmente, “pescador aqui sou só eu. Na época da lampreia vêm mais um cinco ou seis”. No entanto, lembra que no passado “chegou a haver 25 barcos no rio, cada um com dois pescadores”. “Estavam por aqui mais de 40 famílias”, acrescenta a sogra.

Lena com o genro Francisco Pinto, pescador  

Contudo, há uma mágoa no coração das pessoas do rio, o açude construído em Abrantes.

É um travão que está ali na migração dos peixes e nós temos que ir pescar lá para baixo, para Abrantes, para depois do açude”, revela Francisco.

E agora, já podemos comer o peixe e a lampreia do Tejo? “Eu como”, afirma, convicto, o pescador. “E digo-lhe que estive 11 meses sem ir à pesca, apesar de nunca ter havido proibições. Eu é que via que a água não estava em condições. Foram 11 meses sem deitar uma rede ao rio e sem se ganhar nenhum dinheiro. Foi complicado”, relembra. E como diz Francisco, “para se estragar tudo, bastam dois ou três dias, para recuperar leva anos. Há espécies de peixes que praticamente desapareceram do rio, como as bogas, o peixe-rei ou os góbios. Só cá estão os mais resistentes, como o barbo e a carpa e pouco mais. Agora há as espécies novas como o siluro, o lucioperca e o alburno”.

Agora, com a “água boa”, os níveis de oxigénios “estão excelentes”. “A semana passada estavam a 8.6, o ideal é 10, portanto, está ótimo. Agora, falta, e estamos fartos de pedir, que alguém faça uma análise aos peixes” e confirme que está tudo bem “para que voltemos a cativar as pessoas e os clientes estarem à vontade a comer”, pede Francisco Pinto.

Voltando à lampreia e aos apreciadores, Lena recebe convivas do país inteiro. De mais longe vem, anualmente, “um grupo de Mirandela”.

Neste Festival da Lampreia, “o papel da Câmara é promover, divulgar, custear a publicidade, fazer tudo para que as coisas corram bem para que os restaurantes façam o que sabem fazer, que é confecionar a lampreia. À Câmara compete apoiar este segmento das atividades económicas, promovendo também o presunto, o queijo, o mel, os enchidos... tudo para termos um bom Festival da Lampreia”, explicou Vasco Estrela.

O investimento por parte da Câmara Municipal de Mação situar-se-á entre os cinco a seis mil euros.

Patrícia Seixas