Nós transportamos a Santa, a Festa é do povo

Sociedade 2019-06-02
Nossa Senhora dos Avieiros ou do Tejo
Nossa Senhora dos Avieiros ou do Tejo

Começou a viagem de 2019 no Rosmaninhal e Santiago de Alcântara, na fronteira espanhola. A imagem da Nossa Senhora dos Avieiros ou do Tejo é colocada na proa da bateira que, há sete anos, a transporta. E ao longo de 15 etapas vai descendo o Tejo, com paragens aqui e ali, nas margens, onde é saudada pelo povo. Onde abençoa o povo. E onde permite a criação de momentos culturais, cada um deles, à medida de cada terra.

A bateira que transporta a imagem santa é conduzida pelo mestre Lobo, marinheiro, que já competiu na motonáutica e que já foi bombeiro mergulhador, em Alpiarça. Na bateira fazem-lhe companhia outros elementos da Confraria Ibérica do Tejo. Tem como guarde de honra, e segurança, dois botes do corpo de Fuzileiros. E depois, ao longo do percurso, juntam-se-lhe outros barcos, botes e canoas. Podem juntar-se só nos locais de paragem ou fazer percursos nas etapas.

O Cruzeiro Religioso do Tejo, vai já no sétimo ano e faz o caminho fluvial dividido por 15 etapas e muitas paragens pelas aldeias ribeirinhas que outrora, com maior ou menor vigor, foram todas piscatórias. Daquele tempo “em que o rio não tinha poluição, tinha muita vida e muito peixe”. Daquele tempo em que o Tejo era atividade económica que dava de comer e trabalho a muita gente destas aldeias. De todas, não apenas das que tinham maior concentração de avieiros ou de pescadores. Ou daquelas mais próximas da orla marítima. A recordação é de Júlio Lobo, o marinheiro que conduz, “com muito orgulho” a Nossa Senhora, Tejo abaixo.

A etapa começou de manhã a jusante da Barragem de Ortiga. A barreira no rio obrigou ao transporte da bateira e dos botes dos Fuzileiros em camião. Mas, assim que voltaram à água, tiveram a colaboração da EDP que aumentou as descargas na Barragem de Belver até às 15 horas. Era a forma de permitir uma parte da etapa sem sobressaltos.

Quem é esta zona do norte do Ribatejo conhece bem o rio, e vê como ele corre, quase vazio, em grande parte dos dias. Navegabilidade é palavra que quase desapareceu do léxico desta região. Aliás, o guardião do Tejo, Arlindo Consolado Marques continua a olhar para o “seu” rio e a levantar estas questões. Da poluição, agora menos, felizmente.

Com caudal suficiente as três embarcações tiveram a companhia de uma outra, mais pequena, de recreio que acompanhou a bateira da santa dos Avieiros pela sua descida.

À chegada dos barcos estava um número considerável de habitantes. Debaixo de uns choupos frondosos e frescos, que a tarde tinha um sol muito acima dos 30 graus, a Filarmónica Mourisquense acolheu a imagem. Quem a esperava também era o Pároco, Francisco Valente, que conduziu uma pequena cerimónia litúrgica.

Chegamos a Mouriscas e vimos isto mesmo. Como nos havia dito Rui Rodrigues, da Confraria Ibérica do Tejo. O povo é que faz a festa, é que faz com que o cruzeiro religioso pontue, anualmente, estas localidades.

Por ali estavam famílias em autênticos piqueniques. Escuteiros. Elementos da organização da freguesia com a oferta do almoço. Entre saladas frescas e os doces caseiros não faltaram os grelhados e a bebida fresca.

Também no período de almoço, enquanto a Nossa Senhora estava em terra a olhar o rio (como se pode ver na fotorreportagem da Carolina Ferreira) o convívio era salutar e, sempre, bem-disposto. A presença dos Fuzileiros foi outro ponto chave do convívio. Permitiram a realização de “batismos” de navegação a quem nunca tinha andado nos botes militares ou até, nalguns casos, num barco.

Repostas as calorias de uma manhã quente, altura de embarcar para o percurso da tarde. Saída de Mouriscas, paragem no Pego e final da etapa do tio em Rossio ao Sul do Tejo.

É aqui, em Mouriscas, que começa a nossa viagem, pelo rio, num dos botes dos fuzileiros, o Cristóvão e o Moreira.

Primeiros os coletes, por razões obvias de segurança. E depois o bote entra na água. Deixamos ou choupos, frescos, e podemos observar a população de Mouriscas, de lenços brancos nas mãos, a dizer adeus à Nossa Senhora. Um até p’ro ano.

Já na “nossa” descida do Tejo os nossos “companheiros” vão explicando como tem sido a descida. Carlos Cristóvão é o primeiro ano que vem ao Cruzeiro. Miguel Moreira é o segundo, já tinha feito o percurso em 2017. E manifesta vontade de repetir.

Entre os conselhos para uma viagem tranquila, vamos falando dos percursos. Desde as encostas beirãs, mais escarpadas, às “Portas de Rodão”, ou aos grifos (as aves) que por ali nidificam. Depois os percursos vão mudando, à medida que se desce. Mesmo assim, entre Alvega e Mouriscas, algures onde foi o canal de Alfanzira ou nas “carreiras”, como lhe chamam localmente, existem zonas de maior adrenalina. Nada que a formação militar não resolva, mas é uma passagem com mais riscos, quando o Tejo leva pouca água e a zona é muito rochosa.

Vamos olhando as margens, de um lado e de outro. Vamos apreciando um rio cada vez mais “selvagem”. Os salgueiros, os choupos, os zambujeiros e outros arbustos ribeirinhos tomam conta das margens e de todas as pedras mais altas que formam ilhas no meio do Tejo. Mesmo assim pode ver-se, ainda, um ou outro bote que está preso à margem. Sinal de que ainda existem algumas pessoas que vão ao rio, nem que seja para “matar saudades dos outros tempos”.

Observa-se a antiga estação dos Caminhos de Ferro de Mouriscas, entretanto encerrada. Observa-se uma ou outra quinta agrícola pelas encostas do rio. Observa-se a tomada de água da Central Termoelétrica do Pego. E quando passamos esta construção onde é captada a água que será transformada em vapor para fazer trabalhar as turbinas e alimentar o gerador surge outra barreira, mais recente.

É que foi construído um travessão, uma barreira de pedras, no Tejo por forma a criar uma represa de água para esta unidade de produção de eletricidade. E este travessão impede a navegabilidade dos barcos.

Mas a barreira é contornada pela presença de uma grua da Câmara de Abrantes, na margem que passa os barcos pelo ar, por cima das pedras do travessão. É uma operação mais demorada, pois há que avaliar todos os cenários.

Nós ficamos em terra, a assistir à operação. A bateira com a Nossa Senhora dos Avieiros, é levantada pela grua com o mestre Lobo sempre no seu posto. Nem aqui larga o barco. “Sabe, estou habituado a isto. Por isso é que disse que a cinta na bateira estava bem colocada. Fui piloto de competição. E quando a grua punha os barcos na água eu ia lá em cima deles, agarrado aos cabos”. Explicação simples de quem tem uma vida nas águas dos rios.

Com outra versatilidade, os botes dos fuzileiros, não precisam de grua. Vão para a margem norte, do lado de Mouriscas, onde há uma abertura mais “navegável” e passam, mesmo com a maior agitação da corrente.

Voltamos a reagrupar depois do travessão para continuar o percurso. Por esta altura, já a EDP teria terminado a descarga de maior volume. Mas também iríamos entrar na zona onde começa a notar-se a presença do espelho de água do açude de Abrantes.

Quando continuamos a observar as margens, a bateira com a Nossa Senhora, segue calma e serena uns bons metros mais atrás. Começamos a ver a receção no Pego. Primeiro os reflexos das bandeiras. Mais perto vemos as pessoas que ali estão. Em menor número do que é habitual. Mas o calor e a festa de aniversário do Rancho do Pego (nesse dia) deixaram a sua marca. Mesmo assim receberam a Nossa Senhora com as suas orações e com pétalas de rosas.  Ali, num terreno preparado apenas para este momento o grupo “Companhia dos Alegres” presenteou o Cruzeiro, e os pegachos presentes, com meia dúzia das suas danças.

É aqui que Júlio Lobo deixou o seu lamento para um rio “onde podíamos beber água e agora está assim, abandonado”. Recordou que lá atrás, tomavam banho no rio, viviam do rio. Depois, quando as pessoas deixaram o rio veio a poluição. “Agora está melhor, há dois anos a água até cheirava mal. Mas, sabe, se andarmos por cá, mais pessoas, vão todos estar mais atentos. Todos, incluindo quem manda. E se estivermos todos mais atentos há menos poluição”. Júlio Lobo, com o seu boné azul comanda com mestria a bateira. Ladeado, na maior parte do tempo pelos botes dos fuzileiros fazem a descida do rio na sua calma. Não é uma corrida, é uma descida. E depois enfatiza o facto deste cruzeiro permitir o convívio com as gentes ribeirinhas. Mesmo com o sol abrasador.

Depois de uma pausa e de, novamente, muito convívio na margem voltamos novamente ao rio e ao percurso até ao final de mais uma etapa.

Podemos, ao longe ver Abrantes com a sua fortaleza, que fez parte da linha defensiva dos Templários. E dali, do meio do rio, percebe-se a sua importância de defesa do território. Se o rio já era uma barreira, a encosta acentuada tornava-se outra fonte de segurança para os defensores do reino.

Também podemos observar, nas águas mais paradas, patos reais que levantam voo quando sentem o ruído dos motores dos barcos, ou umas cegonhas e umas garças. Aqui e ali observamos umas tainhas que fazem os seus saltos na água.

Fazemos uma última curva, quando vemos as pontes de Abrantes (ferroviária e, mais à frente, a rodoviária) e, da margem sul, a tenda gigante que marca a paisagem. É ali que a imagem da Nossa Senhora do Tejo vai chegar. Novamente, com os cânticos da sua oração, com mais população e com a presença do Diácono Virgílio Marcelino que a recebeu. Conduziu, depois, a cerimónia litúrgica, na margem do rio, em Rossio ao Sul do Tejo.

Aqui, cruzou-se com os Mercados Itinerantes, organizados pela Tagus, que “atracaram” este fim-de-semana em Rossio ao Sul do Tejo e pôde observar os papagaios de papel que ainda “voavam” pelos céus dos Mourões, no final de mais uma edição do seu Festival de Abrantes, por ocasião do Dia da Criança.

A Nossa Senhora dos Avieiros ficou em terra. A etapa só terminou em Tramagal, mas esta viagem foi feita de carro. Os botes e a bateira foram retirados do rio por uma grua da Câmara de Abrantes. Fizeram também o percurso de camião para no domingo voltarem a “beijar” as águas do Tejo, já depois do açude de Abrantes e continuar a sua viagem. Rio abaixo, com paragem nas aldeias ribeirinhas, até Oeiras a 23 de junho.

Tramagal, Rio de Moinhos, Amoreira, Constância, Praia do Ribatejo, Tancos, Arripiado e Vila Nova da Barquinha foi a etapa de domingo. No dia 7 de junho arranca nova etapa, com partida de Vila Nova da Barquinha e chegada a Vale de Figueira.

A Nossa Senhora dos Avieiros é uma festa do povo. “Nós só transportamos a imagem, a Santa, depois a religiosidade e os momentos culturais e de convívio são do povo”. É assim que os membros da Confraria caracterizam esta peregrinação ao longo das águas do rio Tejo, desde Espanha, até Oeiras.

É assim que, todos os anos, as populações vão à margem do rio saudar a Nossa Senhora dos Avieiros, ou Nossa Senhora do Tejo. É um Cruzeiro religioso mas, acima de tudo, popular e cultural.

Agora segue-se o olhar da Carolina Ferreira...

 

A história da Nossa Senhora dos Avieiros e da Confraria

A Nossa Senhora dos Avieiros é uma santa recente. O título de Nossa Senhora dos Avieiros e do Tejo nasceu da vontade das comunidades ribeirinhas e foi aceite pela Igreja Portuguesa. A 4 de maio de 2013 celebrou-o numa missa solene, realizada na Igreja de Jesus Cristo, em Santarém, tendo aí consagrado a imagem para, nesse ato passar a reconhecer Nossa Senhora como aquela que guia e protege os pescadores do Tejo e as comunidades ribeirinhas do Tejo. Depois, a 2 de maio de 2015, em Vila Velha de Ródão, foi coroada pelo Bispo da Diocese de Portalegre e Castelo Branco. Após a celebração a imagem ficou na Igreja Matriz de Vila Velha de Ródão onde se manteve até 30 de maio dia em começou a sua peregrinação fluvial anual pelo Tejo e que, em 2015, decorreu entre Vila Velha de Ródão e Oeiras. 

Nota final para a associação Confraria Ibérica do Tejo que organiza a peregrinação anual. A Confraria foi constituída em 25 de março de 2017 pelas seguintes 28 entidades: Câmaras Municipais (Benavente, Azambuja, Gavião, Castelo Branco, Abrantes, Vila Franca de Xira, Mação, Vila Velha de Ródão, Marinha Grande); Juntas de Freguesia (Carregueira, Vila Franca de Xira, Rossio ao Sul do Tejo, Rio de Moinhos, Vieira de Leiria, Azambuja, Praia do Ribatejo, Póvoa de Santa Iria); Universidades e Ensino Superior (ISEC – Instituto Superior de Educação e Ciências, ISCTE – Instituto Superior de Ciências de Trabalho e Empresa, Universidade do Algarve, Universidade Europeia – IADE-U, Instituto Politécnico de Tomar, Universidade Nova de Lisboa, Universidade de Évora, Universidade de Castilla-La Mancha (polo de Talavera de la Reina), Universidade de Extremadura, Escola Superior de Tecnologia de Abrantes, Escola Superior Agrária de Santarém).

 

Reportagem: Jerónimo Belo Jorge

Fotorreportagem: Carolina Ferreira