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Sociedade

Na terra das velas, há uma arte que é para “a vida toda”

2/08/2019 às 00:00
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Onze da manhã em ponto. O cheiro a vela paira no ar e envolve inevitavelmente quem sobe a Ladeira de São Bernardo, em Cardigos. Para lá da porta ouve-se tocar na rádio a música “A Vida Toda”, de Carolina Deslandes. Entramos. O espaço transporta-nos inevitavelmente para um ambiente acolhedor, onde o tempo parece não passar e a religiosidade do trabalho se sente a cada canto, não fossem também as velas produzidas enviadas, em grande parte, para Fátima.

Lá dentro ouve-se o senhor António a mexer nas tábuas de cera. Cada segundo importa e por isso não há tempo para grandes conversas.

Do antigo lagar “tal e qual como um de azeite antigo”, onde se “transforma a cera em bruto para apurar” e se derrete a cera suja, para as ceiras de onde “pressionadas escorre a cera líquida”, para as caixas onde se moldam as barras, divididas por travessas - porque “pegar numa barra inteira é muito pesado” - até chegar à máquina que molda e dá forma à cera “conforme aquilo que a gente pretende”, o processo é repetido vezes sem conta, movido pela força, pela vontade e pelo gosto que de quem há 67 anos faz das velas vida.

"Caixas" onde se moldam as barras de cera, divididas por travessas porque “pegar numa barra inteira é muito pesado", explica o senhor António

É sem horários e sem fins de semana que a Fábrica de Velas Condestável se mantém “há cerca de 35/40 anos” em atividade, como um das mais antigas na região. Nasceu pelas mãos de António Silva e produz cerca de 2500 velas por dia.

Com um sorriso na cara e um espírito positivo, todos os dias às sete da manhã já está na fábrica porque “quem trabalha com gosto não cansa”.

Este ‘amor para a vida toda’ começou aos 17 anos, quando António foi “trabalhar para uma fábrica de velas aqui em Cardigos, a terra das velas”, ao mesmo tempo que trabalhava num café. O destino assim quis que, tempo depois, pensasse em “pôr uma fábrica por minha conta e foi indo pouco a pouco, até que hoje já é uma boa fábrica”.

A Fábrica de Velas Condestável recebeu já a visita do bispo da Diocese de Portalegre e Castelo Branco, D. Antonino Dias

“Calhou assim. A minha vida tem sido sempre com muitas horas de trabalho mas com gosto”, conta-nos António enquanto coloca as travessas a dividir as tábuas.

Hoje, tem a ajuda “daquelas máquinas, em que a gente mete lá as barras e está sempre vela a sair”, mas ainda tem a máquina “à moda antiga” onde se punham 16 velas a secar, com a qual já foi até ao Algarve, para dar a conhecer a sua arte em feiras.

São vários os tamanhos de velas que saem desta máquina, onde se molda a cera e é colocado o pavio dentro da vela - que é depois afiada numa outra máquina, ficando pronta para seguir para os quatro cantos de Portugal

Produz para “todo o país”, com destaque para o Norte, mas é para Fátima que vão mais velas. A Condestável é uma das quatro fábricas do país que produzem para o Santuário.

“Agora as fábricas estão a ter uma crisezinha porque não se gastam velas nas Igrejas. Em Fátima gasta-se muito e eu tenho a sorte de ter o cliente de Fátima, senão…”, conta António, enquanto aponta para um depósito grande com o qual vai buscar “cera líquida que há lá nos depósitos para depois para a semana ir lá levar uns 300 e tal quilos de velas”.

Numa altura em que matéria-prima “há em todo o lado”, o senhor António diz que apenas usa “matéria-prima boa para fazer placas para as abelhas, cera pura” e foge à moda da parafina, o derivado do petróleo que muito se usa para fabricar velas.

Com a ajuda de instrumentos mecanizados, nesta fábrica são produzidas cerca de 2500 velas por dia

A conversa está boa, mas o tempo corre e a cera já está a ficar fria. Enquanto o senhor António foi tirar as barras para irem para a máquina, falamos com o neto.

André Flores tem 27 anos e representa já a terceira geração da família. Acompanha o avô todos os dias, seja nas deslocações pelo país fora seja na fábrica, a produzir as velas de duas qualidades: as de Fátima, com um tom mais amarelo, e as brancas “de primeira qualidade”, como diz o avô António.

Diz sem rodeios que “se não gostasse não vinha para cá” e vê a fábrica como “uma oportunidade” de dar seguimento ao negócio de família.

André Flores está a tornar a Fábrica de Velas Condestável mais adaptada às novas tecnologias e com maior diversidade de produtos 

André pode ser a personificação da renovação, da tipicamente conhecida ‘lufada de ar fresco’. Isso é bem visível no seu discurso, quando conta que “não podemos localizar-nos só na região“ e que “estamos num processo de renovação, porque a fábrica ainda está muito parada no tempo”.

E o relógio está mesmo a começar a andar: “Para já, estamos a criar uma fábrica nova [na zona industrial de Cardigos]. Depois é preciso criar mais procedimentos dentro da fábrica. A própria imagem da empresa precisa de ser mais atual. Vamos entrar na Internet agora, já temos um site quase pronto e vamos começar a diversificar um bocadinho mais os produtos, com velas aromáticas, velas decorativas. Depois disso, iremos iniciar mais presenças em feiras”.

As ideias são muitas, a vontade de as concretizar ainda maior e o futuro está à bater à porta. Um futuro com novas instalações, com mais diversidade e com a certeza dada pelo senhor António de que, mesmo com as dores dos 80 e tais que nem sempre ajudam, vai continuar a “trabalhar com gosto para dominar as dificuldades” naquele que é o seu trabalho para ‘A Vida Toda’.

Máquina de fazer velas "à moda antiga", com a qual o senhor António percorre feiras pelo país para dar a conhecer a sua arte

 

Reportagem por Ana Rita Cristóvão

Fotorreportagem por Carolina Ferreira