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Sociedade

Mouriscas : Uma Oliveira com história | COM ÁUDIO

22/01/2019 às 00:00
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Com mais de três milénios de vida, a Oliveira do Mouchão, situada no lugar de Cascalhos, em Mouriscas, continua a ser uma árvore portentosa e a produzir azeitona. Chegou a ser oferecida para uma “carrada de lenha” mas, imagine-se, de descartável transformou-se num monumento da freguesia.

Comecemos pelo que se supõe possa ter sido o início desta árvore. Trata-se de um zambujeiro (uma oliveira bravia) e que se supõe possa ser uma espécie autóctone desta região.

Há 3350 anos, no Egipto florescia a civilização dos faraós, viveria a famosa Nefertiti, por cá, segundo o historiador Joaquim Candeias Silva “os povos ou tribos dessa altura, talvez fossem já indo-europeus, que, a dada altura (Bronze Final-II), começaram a receber contactos com povos do Mar (Fenícios...)”, terá conhecido os gregos e cartagineses, romanos, suevos, visigodos, muçulmanos e depois, então, os cristãos da conquista afonsina.

A árvore mais antiga de Portugal

José Luis Lousada, o investigador da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) que criou o processo de datação das árvores milenares, revelou ao Jornal de Abrantes que chegou até à Oliveira do Mouchão através de André Soares dos Reis, das “Oliveiras Milenares” e que ainda se lembra da primeira imagem quando a viu: “ Que era uma imagem majestosa…”.

O investigador que desenvolveu o método de datação de oliveiras entre 2007/2008, com patente registada em 2011, revelou a forma como são avaliados os exemplares. “Mesmo que a árvore já não conserve a totalidade dos anéis de crescimento, como os mais recentes estão localizados no exterior do tronco e os que vão sendo destruídos são os que estão no interior, a árvore ao crescer vai sempre aumentando de raio, diâmetro ou perímetro, o que permitirá, então, através duma função matemática elaborada para o efeito calcular a sua idade”.

E no caso concreto da Oliveira do Mouchão, em 2016, estimou-se a idade de 3350 anos, com 2% de margem de erro.

Por seu turno, o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) questionado pelo “JA” revelou, por escrito, que o processo de classificação da Oliveira do Mouchão começou em “31 de agosto de 2005, com um pedido da Câmara Municipal de Abrantes dirigido à Ex-Direção-Geral dos Recursos Florestais”. O instituto explicou ainda que depois de saber da existência desta árvore, realizou uma vistoria técnica com “medições, recolha dos valores dendométricos, registo fotográfico e pesquisa histórica”.

A Oliveira do Mouchão consta neste registo nacional com o aviso datado de 02-01-2007.

A oliveira é cada vez mais procurada… pelos de fora

Também no lugar de Cascalhos, a cerca de 100 metros da Oliveira, o café Dalila é o ponto de paragem de quem procura encontrar a árvore que ainda não tem qualquer sinalização. Dalila Matos revelou que há muitas pessoas que procuram a Oliveira embora “não se percam muito para beber um café. Muitas vezes, sabe, nem abrem a porta do carro. Perguntam onde fica e depois lá vão”.

A comerciante, de 78 anos, confirmou que há mais gente de fora à procura da oliveira “porque para nós não nos diz muito. Sempre ali tivemos a oliveira. Sabe, até já foi uma espécie de casa de banho pública e, tinha eu oito anos, no verão, o Manuel Baptista deixava ali os bois a comer, à sombra”. Entre alguns risos Dalila ainda se recorda do dia em que um inglês passou “na estrada à porta do café” à procura da oliveira antiga. “Eu é que sei a história toda. Ainda tenho um cartão dele ali para dentro. Ele não queria levar esta oliveira como disseram por aí. Queria levar uma para Inglaterra, mas não era esta”.

Já sobre as obras em volta da árvore Dalila Matos acrescentou o momento em que o Engenheiro André Luís, da empresa Ourogal de S. Miguel do Rio Torto, “andou a ver de oliveiras”.

Aliás, é a Ourogal quem detém direitos sobre a Oliveira do Mouchão num contrato de comodato do espaço com a proprietária da mesma garantindo o acesso ao público.

Dalila explicou ao “JA” que aquela seria uma oliveira ralia, ou seja, teria sido doada à Igreja como promessa, que era prática na primeira metade do Século XX. Depois terá sido comprada pelos pais da actual proprietária. Ou seja, a oliveira está situada num terreno, mas é propriedade de outra pessoa que não o dono do terreno.

Já João Gouveia, das “Colinas do Tejo”, de Mouriscas, revela que ainda não tem marcação de estadias por causa da Oliveira, mas defende que “deveria haver outro tipo de divulgação e valorização dum espécime que em si mesmo é um convite a uma viagem no tempo”.

Em 2016, foi criada em Mouriscas o movimento “Rota das Oliveiras Milenares de Mouriscas”, agora integra a ACROM, Associação Cultural das Rotas de Mouriscas e que inventariou um conjunto de outras oliveiras igualmente antigas, mas sem estudos técnicos como a que datou a dos Cascalhos.

Um futuro com mais visibilidade e estudos

O futuro pode vir a ser ainda mais risonho para a Oliveira do Mouchão. É uma peça ancora no “projecto de salvaguarda da arte em esparto”, que vai ser financiado em 2019 pela EDP e terá na autarquia e no Grupo Etnográfico “Os Esparteiros” os principais actores.

Por outro lado, Pedro Matos, presidente da Junta de Freguesia de Mouriscas espera que possa ser implementada toda a sinalética para indicar os caminhos e as direcções da Oliveira.

Já Luis Filipe Dias, vereador da Câmara de Abrantes, adiantou ao “JA” que para além do projecto da arte do esparto, a Escola Profissional de Desenvolvimento Rural, a Sifameca e a Oliveira do Mouchão farão parte de um vasto programa de visitas de estudo e que a Ourogal, em processo de internacionalização, virá a dar ainda mais visibilidade à Oliveira do Mouchão, a mais antiga do país, com 3350 anos.

Jerónimo Belo Jorge

 

Link da Oliveira do Mouchão do Site do ICNF:

http://www2.icnf.pt/portal/florestas/Arvores.qry?Distrito=14&Concelho=1&Freguesia=6&Processo=&template%3Amethod=Pesquisar

Em anexo:

Respostas do ICNF

Respostas do Investigador José Lousada

 

Reportagem radiofónica: