Pesquisar notícia
segunda,
20 set 2021
PUB
Sociedade

Javalis em Abrantes: Os avistamentos, as queixas, as perguntas, as respostas do ICNF e as ações do Clube de Caçadores (C/ÁUDIO E VÍDEO)

25/06/2020 às 00:00
Partilhar nas redes sociais:
Facebook Twitter

Não é novidade que nas encostas sobranceiras ao rio Tejo, aqui para as bandas de Abrantes, sempre terão andado javalis. Desde que os campos deixaram de ter cultivo os animais omnívoros buscam alimento e fogem às zonas que foram queimadas pelos fogos florestais. Só que, nos últimos meses os javalis deixaram de ser vistos apenas nas encostas bravias da cidade para passar a ser avistados em zonas mais próximas dos humanos.

Dizem os entendidos que o javali é “um animal oportunista e com pouca-vergonha”. Quer isto dizer uma coisa simples. Que estes animais avançam pelas zonas urbanas em busca de alimento! E que se o encontram habituam-se e depois acontece o que tem vindo a acontecer.

Ainda segundo alguns caçadores contactados pela Antena Livre há duas situações de risco para uma convivência entre humanos e javalis. Uma é a perigosidade que os animais representam se estiverem feridos ou se as fêmeas sentirem as crias em perigo. A outra a transmissão de doenças, no caso de ser consumida a carne de javali sem controlo sanitário.

Por outro lado, afirmam, nas zonas rurais se um javali sente a presença humana desaparece no meio da floresta.

Ora, em Abrantes parece ser diferente. Os animais perdem a vergonha e não têm problemas em entrar pelas zonas urbanas. A questão que colocam é que podem habituar-se e podem começar a circular mais vezes nas zonas de circulação automóvel, por exemplo.

Os avistamentos de javalis em zona urbana

O ano passado, a 21 de setembro do ano passado uma moradora na Rua General Humberto Delgado, em Abrantes, junto à Escola Secundária Dr, Manuel Fernandes foi à janela e viu os javalis a “passear” pela placa central da praceta. Uma fêmea com os filhotes atrás.


Pouco menos de um mês depois, a 12 de outubro de 2019, na relva dos separadores da Avenida Dr. Santana Maia, na descida para o Hospital de Abrantes, foram vistos novamente. Já de noite as imagens foram captadas pela Vera Lopes. Sempre de noite. Sempre uma fêmea com as crias por perto. 

 

Mas este domingo, dia 201 de junho, foi em plena luz do dia que Inês Lopes viu dois javalis adultos acompanhados pelas crias. A meio da tarde deste domingo, a Inês descia a Avenida Sá Carneiro e, no entroncamento da avenida com a Avenida Eng. Adelino Amaro da Costa, junto à Pousada da Juventude de Abrantes avistou os animais. Teve tempo de agarrar no telemóvel e fazer o registo. E fez o registo daquilo que quase foi um acidente, com uma viatura de mercadorias (como se pode ver) a travar quase “em cima” dos animais.

Há duas semanas também foram avistados animais nos vales junto à Tapada da Fontinha, local onde se realiza o mercado semanal de Abrantes. Por aqui não é novidade a presença dos javalis que procuram o fresco de uma linha de água que por ali corre. Contou um morador que o ano passado uma fêmea fez ali o ninho onde viria a ter as suas crias. E, há duas semanas, outra fêmea foi vista com os “filhotes” naquela zona.

O ataque de um javali a um cão em Abrantes

Na madrugada de 19 de junho, ou seja, na semana passada, depois das 04:00 da madrugada Catarina Gil acordou com os latidos do seu cão Farrusco, que estava preso na sua casota de cimento nas traseiras da moradia. É na Calçada de S. José, em Abrantes e as traseiras dão acesso a um vale cultivado pelo casal de idosos. Do outro lado são as encostas íngremes do castelo ou fortaleza de Abrantes.

Catarina Gil contou que a aflição do animal fez com que, mesmo de pijama, saísse à rua para ver o que se passava. E quando abriu o portão viu o vulto do javali “enorme” e a soltar grunhidos. Sem saber o que fazer lembrou-se que gritar por ajuda. Chamou o vizinho, Joaquim Maria, que também saiu à rua para ajudar a “enxotar” o javali dali para fora.

O bicho atirou-se à casota do Farrusco e com uma “trombada” empurrou-a encosta abaixo. Depois, contam, como tinha os dentes caninos bem grandes tentou, já na encosta, atingir o cão. E conseguiu. O farrusco apresenta várias feridas, que estão a ser tratadas pelos donos.

E tanto Catarina Gil como Joaquim Maria ficaram impressionados com a força do animal que empurrou a casota de cimento pela encosta.

 

Catarina Gil diz que os javalis há muito tempo que andam ali pelas encostas do castelo. Que destroem as culturas da pequena horta. E aponta um pequeno regato onde tem uns agriões. “Estragam tudo”.

Catarina Gil conta o que se passou na madrugada em que o cão foi atacado

Joaquim Maria aponta também às encostas que não são limpas e podem constituir zonas de refúgio para estes animais. Mas não conseguem ter uma explicação para o ataque ao pequeno cão. Pode ter-se sentido ameaçado e resolveu atacar o cão. Só que é ali, à porta das casas.

Joaquim Maria acudiu aos gritos da vizinha

As preocupações dos cidadãos e as queixas às autoridades

A filha de Catarina Gil quando soube do sucedido ficou muito preocupada com os pais e com esta eventual ameaça e denunciou o ataque na sua página de Facebook. Contou o que se passou, publicou fotos e disse que não ia ficar quieta.

Com a preocupação pelo sucedido encetou contactos com a Junta de Freguesia de Abrantes e Alferrarede, com a PSP, com a GNR e SEPNA (brigadas de ambiente da GNR), com o Instituto de Conservação da Natureza e Florestas (INCF), através de email. Entrou em contacto com os serviços regionais do ICNF por telefone e com a Saúde Pública do Médio Tejo. Lurdes Gil acrescentou ainda a proteção civil de Abrantes.

Não tendo nada contra os animais apenas a move a questão de segurança dos pais porque diz “muitas vezes andam sozinhos na horta” e, como ficou visto no domingo, os javalis já não aparecer apenas de noite. Também à luz do dia circulam pelas zonas mais urbanas.

Lurdes Gil explica os passos que já deu

Câmara passa a informação ao ICNF

O assunto dos javalis na zona urbana tornou-se quase viral nas redes sociais e o assunto chegou à Câmara Municipal de Abrantes. A Antena Livre sabe que logo na segunda-feira, dia 22 de junho, a autarquia enviou um email ao ICNF a informar estas situações e a manifestar a preocupação da população em relação a estes avistamentos e, eventuais, acidentes.

Manuel Jorge Valatamos, presidente da Câmara de Abrantes, disse que há cerca de um ano que não se viam os javalis nas zonas urbanas, mas que é preocupante esta aproximação das zonas urbanas. O autarca salientou que o assunto está a ser acompanhado pela autarquia e pela proteção civil municipal, mas deixa claro que a responsabilidade sobre esta matéria é do ICNF. E o facto de se estar numa zona urbana leva a que não possa ser desenvolvida qualquer ação de caça ou batidas. Manuel Jorge Valamatos disse esperar que o ICNF traga uma solução.

Manuel Jorge Valamatos diz que a responsabilidade é do ICNF

Já esta terça-feira, o presidente da União das freguesias de Abrantes e Alferrarede, Bruno Tomás, manifestou em sessão da Assembleia de Freguesia preocupação, mas que a responsabilidade é do ICNF. Será este organismo estatal a desenvolver as ações de resolução do problema. Bruno Tomás indicou ter informação que o ICNF iria fazer deslocar técnicos ao local antes de anunciar qualquer medida em concreto.

Associação de Agricultores pede para as pessoas não alimentarem os animais

Luís Damas, presidente da Associação de Agricultores de Abrantes, Constância, Mação e Sardoal, voltou a indicar aquilo que já em outubro tinha explicado à Antena Livre. É preciso uma ação de controlo da densidade desta espécie que se habitua, cada vez mais, a andar pelas zonas mais urbanas. E a possibilidade de poderem provocar acidentes pode fazer aumentar os receios da população.

Luís Damas voltou a desmistificar os ataques a pessoas, mesmo com o exemplo do ataque ao cão na Calçada de S. José.

“O javali só ataca quando está ferido ou as fêmeas, se sentirem que têm as crias em perigo”, tal como acontece com as mães que protegem os filhos.

Luís Damas pede para as pessoas não alimentarem os animais 

Num quadro rural havia várias opções para controlar a densidade da espécie, mas em zona urbana não é assim, pelo que qualquer ação tem de ser autorizada pelo Instituto de Conservação da Natureza.

Luís Damas admite que as pessoas mais ligadas ao mundo rural, à floresta ou à caça lidam bem com a presença dos animais. Mas quem não está habituado pode ter outros receios.

O responsável pela Associação de Agricultores indicou ainda que agora, com as culturas do milho, os animais vão para essas zonas “onde têm comida e onde têm terras frescas e molhadas, como eles gostam”. Entram os prejuízos nos agricultores. Mas admite que, depois, podem voltar a estas zonas.

Luís Damas deixa um aviso para alguém que possa ter um acidente de carro com um javali e que é para não saírem de imediato para a rua. É que um javali ferido, numa situação destas, pode mesmo atacar. Já esta terça-feira, o presidente da União das freguesias de Abrantes e Alferrarede, Bruno Tomás, manifestou em sessão da Assembleia de Freguesia preocupação, mas que a responsabilidade é do ICNF. Será este organismo estatal a desenvolver as ações de resolução do problema. Bruno Tomás indicou ter informação que o ICNF iria fazer deslocar técnicos ao local antes de anunciar qualquer medida em concreto.

 

O Clube de Caçadores de Abrantes faz o controle da densidade e não é só com abate

O Clube de Caçadores de Abrantes tem a autorização do ICNF para fazer o controlo da densidade de animais em Abrantes. As primeiras autorizações foram direcionadas para Bairro Vermelho e Casal da Preta, mas face ao desvio dos animas para outras zonas, o clube pediu autorizações para outros locais em volta da zona urbana de Abrantes.

Orlando Costa, o presidente do Clube de Caçadores de Abrantes, confirmou à Antena Livre o trabalho quem tem sido desenvolvido nesta matéria e revelou que a cada licença têm de fazer relatórios para o Instituto de Conservação da Natureza e Florestas. O responsável deixou bem saliente que o objetivo não é matar javalis e nem é assim que está a ser feito o trabalho.

A primeira prioridade é tentar desviar os animais das zonas urbanas da cidade e evitar que venham para zonas habitadas ou para as vias de circulação automóvel. E Orlando Costa diz que há um trabalho invisível por parte dos caçadores que vai muito para além de andar com a espingarda ou carabina ao ombro, embora essa possa ser a imagem que existe.

E o que é que fazem? Primeiro tentam encontrar e perceber os circuitos dos javalis e, apesar de a zona ter uma orografia muito complicada, conseguem perceber essas linhas. Tanto que Orlando Costa diz que estes avistamentos são duas fêmeas com crias que andam por esta zona (Pousada da Juventude e Hospital) em busca de comida.

Mas se há notícia de algum javali que faça estragos, aí sim é feito o abate dos animais, como já aconteceu. Mas vincou que essa é sempre uma das últimas opções que tomam. E depois há que ter muitos cuidados porque estamos a falar de zonas urbanas e onde, muitas vezes, os próprios cidadãos ficam incomodados com a sua presença nos terrenos.

Orlando Costa, Clube de Caçadores de Abrantes

Orlando Costa disse ainda que é com muito esforço que os caçadores levantam vedações que estão destruídas. Porque, indica, com vedações colocadas os animais contornam-nas em busca dos locais mais frescos e com alimento, como sejam nesta altura os campos de milho.

No entanto, o presidente do Clube de Caçadores de Abrantes deixa um pedido muito sério à população: não alimentem os animais, nem com milho [que acontece muitas vezes] nem com restos de comida. Não podemos esquecer que os javalis são omnívoros e procuram todo o tipo de comida.

E depois não podemos agir com leviandade. Orlando Costa frisa que não é só a matar javalis que se controla a densidade. E conclui a dizer que mesmo agora [com os últimos avistamentos] o Clube de Caçadores de Abrantes e o ICNF estão a gerir este assunto. E pediu para que não haja alarmismos porque os animais não atacam assim só porque lhes apetece. Mas lembrou que são animais selvagens e, como tal, não devem ser tratados como animais dóceis e domésticos como acontece muitas vezes.

As respostas do ICNF aponta para o abate de animais

O Instituto de Conservação da Natureza e Florestas é quem tem a tutela de controle destas zonas mais próximas das urbanas. São locais onde não pode ser feita caça aberta ou montarias. A caça furtiva, ou ilegal, logicamente não é opção. Resta então o controlo da densidade da espécie.

Desde os avistamentos de setembro e outubro do ano passado que o ICNF já tinha autorizado a Associação de Caçadores de Abrantes a proceder à caça para controlar a densidade. Ou seja, a Associação de Caçadores pode fazer esperas à noite na zona do Casal da Preta e no Bairro Vermelho.

Mas agora e em resposta a uma pergunta da SIC o ICNF responde, por email, indicando que tem conhecimento destas situações e que vai aumentar a lista dos locais onde a Associação de Caçadores de Abrantes pode fazer as esperas aos javalis.

O ICNF indica quais esses locais: encosta sul, Av. do Paiol, Outeiro de São Pedro, Ladeira de São Queitano, Lopo, encostas do Bairro Social e açude do Tejo, incluindo ainda os anteriores locais onde têm sido realizadas as anteriores ações, Bairro Vermelho e Casal da Preta.

O ICNF indica ainda que estas autorizações permitirão aos caçadores propostos, “com carta de caçador válida, licença de uso e porte de arma e seguro de responsabilidade civil, realizar esperas aos javalis todos os dias durante o período noturno, inclusive com recurso a meios artificiais de iluminação, de forma a prevenir e minimizar constrangimentos decorrentes da ocorrência da espécie no perímetro urbano da cidade de Abrantes”. E revela que os caçadores deverão ter precauções acrescidas no sentido de salvaguardar a segurança de pessoas e de bens já que todas estas zonas estão muito próximas de zonas habitadas ou de estradas com muita circulação automóvel.

O ICNF explica ainda nesta resposta que informaram o serviço municipal de Proteção Civil de Abrantes para a necessidade de “aumentar o esforço relacionado com a remoção de lixos domésticos e outros, bem como, a limpeza dos contentores e ilhas de Resíduos Sólidos Urbanos” que são uma das fontes de atração dos animais quando buscam comida.