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27 set 2021
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Sociedade

Escultura traz “anos de vida” para João Reis

7/10/2020 às 00:00
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O interesse não veio de família porém, para João Reis, desde pequeno que a cultura das artes e dos trabalhos manuais foram um ponto de interesse, mas foi já praticamente quando se reformou que decidiu dedicar mais tempo para aprender e aperfeiçoar a arte da escultura.

 

Aprendeu com o auxílio de vídeos na internet as teorias que precisava e com a prática foi melhorando o seu engenho. João Reis admite que nunca vai chegar à perfeição, e muito menos se considera um escultor porque sempre viu a atividade como um hobby e uma “forma de ganhar anos de vida e felicidade”. Admite ainda que o jeito que tem nas mãos também o ajuda muito na arte porque sente que é um “dom” que nasceu com ele, e assim como cantar, é sempre preciso nascer com o bichinho dentro de nós para termos algum jeito.

O processo de escultura começa pela análise de uma foto onde memoriza os traços, a parte corporal e as feições de cada pessoa. De seguida, começa a construir sempre a partir da base, trabalhando até conseguir o produto final. Confessou separar em cada peça uma hora onde decide parar e ver todos os detalhes que tem de para emendar não voltando mais atrás. Feitas em cimento e ferro, as esculturas são feitas para serem duradouras, como as histórias que a pessoa homenageada tem para contar. Como todo o trabalho de João Reis é autónomo, a escolha das pessoas que esculpe é feita pela admiração da história que cada pessoa tem para contar e, como faz tudo por gosto, as esculturas não costumam demorar mais que três semanas a estarem prontas levando sempre o seu tempo a fazê-las com calma porque a pressa é inimiga da perfeição.

O próximo trabalho do artista irá ser realizado com mais três pessoas onde vão fazer um monumento a homenagear os combatentes da guerra do ultramar que vai estar exposto brevemente.

 

À questão de uma obra favorita, João Reis confessou que a obra que fez para o coronel Terras Marques, figura que conheceu há 40 anos na tropa e pela qual criou uma admiração pela personalidade fantástica e pela maneira como o coronel comandava e tratava os soldados num ambiente “pesado” e rigoroso, sentiu que era preciso ser homenageada. Quando lhe entregou o busto feito, o próprio já não o reconhecia pela quantidade de pessoas que já lhe passaram pelos mãos. Porém, deu-lhe efetivamente muito gosto e o coronel Terras Marques ficou muito agradecido pelo gesto. Só que cada peça é única e como não utiliza qualquer tipo de moldes, mesmo que tentasse repetir alguma das suas esculturas ou bustos, nunca iriam ficar igual.

João Reis tem imensas estátuas expostas ao longo das ruas de Montalvo, contudo, recentemente uma gerou algumas argumentações nas redes sociais. Falamos da escultura de «Zé Farinheira», José Fernandes de Oliveira, um cidadão com perturbações mentais causadas por traumas de guerra.

João Reis viu todas as reações que causou mas considera que aquela estátua, a segunda para o próprio Zé, porque já antes lhe tinha feito um busto, foi uma homenagem mas também uma reflexão da sociedade que, considera o escultor, ter sido injusta com o próprio, que no fim das contas luta para viver uma vida com a normalidade possível. “Este foi um gesto que eu fiz porque senti que a minha parte era homenagear uma personagem da terra para que a historia dele não morra”.

Na inauguração da escultura confessou arrepiar-se com a situação pois aquela que era para ser apenas uma revelação com duas pessoas, tornou-se especial pela presença do próprio Zé Farinheira que, na exata hora combinada apenas pelos dois, João Reis e Custódio Rodrigues, apareceu como por magia no local onde estava situada a escultura com as suas próprias feições. João Reis disse que a definição do Zé “é ser imprevisível” e foi emotivo o facto de ele, sem qualquer conhecimento, aparecer lá, mesmo sem saber o que se estava a passar naquele local. Porém, como a homenagem foi feito ao mesmo, Zé ficou para ajudar também no levantar do pano.

 

Sobre o reconhecimento das obras, João Reis diz que nunca fez qualquer escultura a pensar em condecoração, mas admite ser gratificante o facto de as pessoas gostarem da arte que faz e que “é bom a gente saber que as pessoas gostam e tenho tido alguns manifestos através das redes sociais” de pessoas que gostam e admiram aquilo que faz. Houve até uma situação onde uma criança “de sensivelmente oito anos” se dirigiu ao escultor mesmo no café e disse: “Eu gosto das coisas que o senhor faz”. Nessa situação João Reis não escondeu o sorriso e confessou que se sentiu feliz por não ser apenas o público mais adulto a admirar a sua arte mas também os mais novos que, se forem instruídos pelos pais, podem aprender o porquê daquela figura estar a ser homenageada e procurar saber a sua história.

João Reis pretende continuar a construir esculturas e bustos até a vida lhe permitir, porque sente que isto tem-lhe “dado anos de vida” e explicou que quando se gosta de fazer alguma coisa parece que o tempo passa a voar. Por estar reformado, irá aproveitar para fazer aquilo que mais lhe dá prazer.

T: Pedro Santos

F: Taras Dudnyk