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Sociedade

Abrantes: Leitores do amanhã entusiasmam-se com histórias contadas pela autora

29/03/2019 às 00:00
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Dicionários, enciclopédias, livros infantis dos mais diversos temas, jogos de mesa e alguns DVDs de filmes de animação. É assim a biblioteca da Escola Básica Maria Lucília Moita, em Alferrarede. Vários projetos de arte dos alunos decoram as paredes e prateleiras desta biblioteca, o espírito inocente e criativo dos jovens está em qualquer direção onde se olhe.

À hora combinada, as diversas crianças do 3º ano começam a entrar ordenadamente em fila, alguns já com notas de cinco euros nas mãos, prontos para comprar livros no final da sessão. À espera deles está a escritora Manuela Costa Ribeiro, todos se sentam em pufes e cadeiras à sua frente, pois é hora da história.

Numa iniciativa da Biblioteca Municipal de Abrantes, António Botto, tal como regularmente faz com vários outros autores, Manuela Costa Ribeiro veio ler as suas histórias e interagir com os alunos. Uma pequena jornada literária que passou pela “Rosa e os Feitiços do Mar”, “O Toiro Azul” e culminou com “O Cego do Maio e o Mar”.

Três histórias diferentes, umas completamente imaginadas e de pura fantasia, outras inspiradas em lendas ou em gente da vida da autora. Mesmo diferentes, causavam o mesmo efeito de admiração em todas as crianças. Umas vezes sentiam-se tristes pelos personagens, outras tentavam adivinhar o que iria acontecer a seguir, mas as gargalhadas de diversão e o cantar de Manuela Costa Ribeiro com os alunos foram o que mais se destacou desta breve jornada.

A primeira história contada pela autora falava sobre a menina Rosa que morava na Póvoa de Varzim, a terra da autora. O pai da personagem era pescador e a mãe era peixeira. A menina, após uma febre alta, perde a audição. “É como se a Rosa estivesse fechada num mundo muito próprio”, explica a autora de forma simples e mostrando os desenhos que a ilustradora fez. Os alunos expressam ali as suas tristezas. Em uníssono ouve-se um “OH”. Apesar da história se basear em pessoas que realmente existiram – a primeira senhora onde a mãe de Rosa ia vender o peixe era a avó da autora – há uma parte de fantasia que encanta os miúdos. Surgem as criaturas do mar. Manuela imita um peixe a ‘falar’ e com a boca em bico ensina que “eu apenas falo com os meninos e as meninas que percebem a fala de quem não precisa de ouvir para entender”. As risadas preenchem o ambiente, não por causa da frase, mas sim por causa da forma engraçada que a autora imita uma pescada mágica.

Manuela, oriunda de uma família com sete irmãos, explica de onde surgiu a ideia para esta história: “É para homenagear pessoas que conheço, a Rosa é uma senhora que depois de crescida ia vender peixe a minha casa e que era realmente surda. Sabem por que decidi escrever esta história? Porque quando eu era pequenina, eu e meus irmãos ficávamos muito confusos porque Rosa não ouvia nada quando gritávamos, mas se falássemos com ela, ela percebia tudo por que ela lia os lábios.”

O segundo conto, em forma de poema, era sobre um toiro chamado Serafim, o toiro mais colorido do bando. “E assim ficou azul o Serafim, se calhar sim ou então entrou pelo mar sem fim e não estava treinado e, tocado para aquele passeio desorientado, deu tantos mergulhos, tanta água engoliu que de azul se tingiu”. Esta história foi também a preferida das crianças: “Foi o mais interessante na minha opinião, porque conta mais coisas é também um estilo que muito gosto que é poemas”, explica Martim, de oito anos.

Maria Inês, também com oito anos, diz que quando crescer quer ser cirurgiã e demonstra- se feliz pela iniciativa da escola: “É interessante ter aqui uma autora. Há pessoas que não têm esta possibilidade de tê-la ao pé de nós e não têm uma escola assim, para ter uma autora cá.” Maria Antónia Pereira, coordenadora da escola, apresenta as razões para abrir as portas a estas iniciativas, propostas pela Biblioteca Municipal António Botto: “Nós aceitamos sempre estas iniciativas porque são sempre bem aceites pelos alunos, servem para eles aprenderem, para terem contacto com as obras. Temos cá recebido diversas escritoras. Os alunos gostam muito e depois nos dias seguintes há trabalhos de continuidade e de exploração que eles fazem. Além disso, antes eles são preparados e leem as obras.”

Celeste Santos, animadora da Biblioteca António Botto, organiza estes contactos entre escritores e pequenos leitores e vibra com o que acontece nesses momentos. “Eles são o futuro do amanhã, assim como nós somos o futuro imediato. As crianças são um desafio. Às vezes, de onde menos esperamos, saem as respostas mais espetaculares. Por vezes, parece que eles estão um pouco desatentos, mas a mensagem fica lá, dessas histórias verdadeiras e dos autores. Fica sempre lá e serve para a construção intelectual deles.” Celeste acredita também que ler é essencial no crescimento das crianças: “Eu acho que a leitura é o mais importante, sem leitura nós não vamos a lado nenhum. Por que começamos a ler sem saber ler. Ler é tudo na vida.”

Mas não são apenas os alunos que usufruem deste encontro. O mesmo pode ser dito sobre a própria escritora. Manuela Costa Ribeiro não se limita a simplesmente contar a história, também explica o que está por trás da mesma e diverte-se com as reações e interpretações das crianças. Trata-se de uma experiência onde o autor pode “transmitir coisas diferentes do que está na história”.

Os alunos aprendem com a autora e a autora aprende com os alunos. Ao trocarem ideias, a crianças descobrem o que está por trás das simples palavras e das ilustrações dos livros, ao mesmo tempo que Manuela Costa Ribeiro é fascinada pela imaginação sem limites das crianças e suas próprias conclusões.

As crianças têm muito mais para nos ensinar do que pensamos. Eu acho que os maiores ficcionistas são as crianças. Porque as crianças podem sempre ir mais longe, não têm muito aquela noção do que é possível e do que é impossível, por isso, para as crianças tudo é possível.” Manuela Costa Ribeiro elogia assim as capacidades das mentes infantis com uma total admiração.

Luís Bravo Dias e Vitória Thomazini, alunos de Comunicação Social da ESTA

Fotos de Vitória Thomazini