ENTREVISTA: A nossa vida não voltará a ser a mesma

2020-07-08

A Coordenadora da Unidade de Saúde Pública do Agrupamento de Centros de Saúde do Médio Tejo sonha com a pandemia, almoça em frente aos computadores e quase não tem fins de semana desde que começaram os casos positivos de infetados na região. Maria dos Anjos Esperança teme uma segunda vaga de SARS-COV-2 porque os sintomas são idênticos aos da gripe, mas diz que as pessoas estão, em geral, mais bem preparadas se isso acontecer. Vê pouca televisão e quando vê aponta às notícias, senão adormece, e na rua corrige as pessoas que usam mal a máscara. Explica como é que no Médio Tejo se preparou a chegada da pandemia. É ela um dos rostos da autoridade de saúde na região.

Começo, invariavelmente, por lhe perguntar como é que tem sido a sua vida desde março, desde que começou a pandemia?

A vida da Maria dos Anjos desde março tem sido um pouco complicada, quer em termos pessoais quer profissionais. Em termos profissionais porque estamos no meio de uma pandemia e isto exige muito de todos os profissionais de saúde e sobretudo que não ande muito para a frente e que os casos não sejam muitos. Todos os profissionais, desde os enfermeiros, técnicos de saúde ambiental, higienistas orais, assistentes técnicos, médicos, têm de estar muito atentos. Em termos de Maria dos Anjos, do ponto de vista pessoal, tem tido muitas alterações. Neste momento não sei quando é que é o sábado ou o domingo. Por vezes de manhã acordo e penso “hoje é segunda? Ou quinta?” porque tem sido todos sábados e domingos a trabalhar. Só com um bom ambiente familiar e um bom apoio é que nos deixam andar para a frente. Posso dizer que vi o meu filho a 23 de fevereiro e depois só tornei a vê-lo a 21 de maio. E vive a pouco mais de 90 kms, em Lisboa.

Ali por alturas de fevereiro, na saúde pública, percebeu-se que íamos ter pandemia ou tiveram alguma esperança que “passasse ao lado”?

Percebemos que íamos ter. Não esperávamos que fosse uma pandemia com tantos casos e com sequelas que ainda não sabemos quais são, mas com mortalidade nas nossas camadas mais idosas. Tínhamos esperança (e eu sou Esperança, por parte do marido) que isto não fosse assim tão grave. Tínhamos tido uma experiência com a gripe das aves que não nos deu praticamente trabalho nenhum…

Como é que no Médio Tejo se prepararam para o embate?

A Unidade de Saúde Pública dá apoio a 11 concelhos. Há só uma unidade, ao contrário das outras unidades. Tínhamos até ontem [30 de junho] apenas quatro médicos de Saúde Pública porque uma está de licença de maternidade até ao final do ano. O que é que fizemos? Pensámos: vamos dividir o território [11 concelhos] por quatro médicos, vamos criar equipas concelhias com um médico, enfermeiros, técnicos de saúde ambiental e higienistas orais. E depois articulam-se com a autoridade de saúde, que somos três. Mas não pode ser estanque porque se um não está, o outro tem de dar uma ajuda.

 

"E todos os dias, no período de isolamento, nós telefonamos. Isso é que algumas pessoas não aceitam e já têm sido nalguns casos, inconvenientes"

 

O que é que mudou em relação à vossa forma de trabalhar?

Quando começámos a perceber o que aí vinha começámos a pensar: como é que vamos desenvolver o nosso trabalho? O que era preciso em termos de saúde pública. O saber identificar os casos que poderiam ser positivos e de imediato os contactos. E foi assim que nos organizámos. Deixámos, por exemplo, de fazer fosse o que fosse em termos de saúde pública. Dos 32 programas e projetos que temos na nossa unidade deixámos de fazer. Nem colheitas de água, nem vigilâncias de estabelecimentos, saúde escolar. Parou todo o serviço de saúde pública, exceto algum serviço como os internamentos compulsivos, os apoios a pessoas com problemas psiquiátricos ou algum caso de urgência. Dedicámo-nos exclusivamente aos boletins epidemiológicos, aos contactos epidemiológicos, à investigação de cada um dos casos, em articulação com a Administração Regional de Saúde.

Não são poucas pessoas para um trabalho árduo, quando têm que “ligar” os casos que vão surgindo?

Sim. É muito pouco. Mas em termos de saúde pública todo o país está assim. Sabe, eu surpreendo-me agora quando se ouve dizer que se vão contratar mais médicos de saúde pública. Onde é que eles estão? Eu não sei. Esta semana (3 de julho) fazem exame final cerca de 20 internos que estão a acabar o quarto ano e que já deviam ter feito exames em março, que foram adiados, que depois serão colocados nos locais onde fizeram os internatos. A partir de segunda-feira (6 de julho) conto ter aqui a minha ex-interna. E outra coisa que nos atrasa mais um bocadinho. Os exames são feitos no país inteiro, mas sem atenção às zonas das pessoas. Eu tenho que ir ao Algarve fazer-lhe o exame. Estão aptos a trabalhar, mas somos sempre poucos porque o que interessa nesta pandemia é conseguirmos identificar a partir de um caso positivo, o mais urgentemente possível, os contactos que essa pessoa tem. Para não os deixarmos “fugir”, para impedir que tenham contactos com outras pessoas, para circunscrever aquele caso.

Esta pandemia pode vir a despertar o interesse pela saúde pública? Pode levar mais jovens a optarem pela saúde pública?

Eu sou médica de saúde pública por convicção, por vontade, por desejo. Eu não gostava que as pessoas viessem para saúde pública por agora haver uma pandemia. Agora, que efetivamente esta situação veio despertar a curiosidade do que é, do que faz um médico de saúde pública, é uma verdade. E espero que venham mais pessoas porque, permita- me a expressão, a saúde pública mete o nariz em tudo. E o aliciante é o trabalhar com as populações desde os bebés aos idosos e podermos fazer a prevenção da doença. É o estarmos antes da doença

Como é que se diz a uma pessoa que pode estar infetada? Que tem de ficar isolada?

De uma maneira geral, quando telefonamos às pessoas, temos de fazer muitas perguntas. Quando telefonamos a uma pessoa doente temos de lhe pedir todos os contactos que teve. Normalmente a pessoa já sabe o resultado porque tem havido o cuidado dos laboratórios, mesmo até do hospital, de informar de imediato. A maior parte das vezes já sabem. Mas tem de se ter um bocadinho de cuidado, de “savoir faire”. Temos de perguntar se foi feito o teste, temos de desmistificar. Temos de perceber se estamos a falar com uma pessoa idosa ou jovem, porque as circunstâncias da doença são diferentes. E depois dizer que é positivo.

Em geral aceitam as vossas indicações ou chegam a ser “mal-tratados”?

Já tive algumas pessoas que choraram e ficaram com muito medo. “Foi uma surpresa muito grande, eu tenho estado em casa…”, mas há sempre qualquer coisa que pode justificar o contágio. Nunca tive ninguém que me dissesse alguma coisa desagradável. O que acontece por vezes é com as pessoas que temos em vigilância não aceitarem muito bem serem vigiadas. E todos os dias, no período de isolamento, nós telefonamos. Isso é que algumas pessoas não aceitam e já têm sido nalguns casos, inconvenientes: porque é que andam a aborrecer; porque é que me andam a chatear; porque é que me andam a aborrecer todos os dias; o que é que tem a ver com a minha temperatura.

Sentem-se intimidadas?

Sim, sentem que é uma invasão da sua intimidade, porque nós fazemos muitas perguntas. Pelo que percebi há um trabalho de “casa” com reuniões quase constantes,há o trabalho de campo, porque vão para o terreno….

Deixe-me pedir-lhe para recordar o caso do surto do Carvalhal. Quando tiveram os primeiros testes positivos, quando souberam que era um lar não licenciado, quando perceberam que as pessoas andaram na comunidade… como é que se gere uma situação dessas?

Andámos a fazer essa investigação, que foi a nossa colega mais nova que fez essa investigação. Temos de ter tempo. Não é a primeira, nem segunda vez que saio daqui [serviço] às nove ou dez da noite. Mas tenho de dizer, sempre acompanhada pela administrativa, pela técnica, por outros elementos da equipa. E acontece nos outros locais onde temos equipas. Nós fazemos investigação e vigilância ao sábado e domingo. Falou no Carvalhal, mas tivemos mais, infelizmente. Temos de ir ao terreno. É preciso avaliar as condições da casa. É preciso fazermos as reuniões com a Proteção Civil, com a comissão executiva, com os bombeiros, com a PSP ou GNR (…) tiramos as pessoas desses lares, testar todas as pessoas, separar os positivos dos negativos (…) e nós acompanhamos esse processo todo. Temos tido a ajuda do Centro Hospitalar do Médio Tejo que colocou à disposição do distrito uma enfermaria para as pessoas que não têm onde ficar. Depois, em conjunto com a Proteção Civil, fazemos a higienização dos edifícios.

 

"Do Médio Tejo,e pelo que sei da Lezíria, os números são reais"

 

Os números. Há sempre muita dúvida sobre a veracidade dos números. Há discrepâncias entre os nacionais e os regionais. Os do Médio Tejo, são os números reais? As pessoas podem confiar nos números divulgados?

Do Médio Tejo e, pelo que sei da Lezíria, os números são reais. E porquê? Porque nós tiramos os números de 24 em 24 horas. E os números são dados sempre pela autoridade de saúde e pela plataforma da Direção Geral. Da plataforma sabemos alguns, outros sabemos porque temos a informação dos laboratórios privados, do Centro Hospitalar do Médio Tejo, do Hospital de Leira (…) porque é obrigatório qualquer análise positiva ser comunicada à autoridade de saúde….

mas porque é que Abrantes tem um total de 44 casos positivos (dados do ACES) e na plataforma da DGS aparece com 23 (no dia 1 de julho)?

Porque a forma de tirar os casos da Direção Geral será diferente da nossa. E isso causa dúvidas. Nós temos uma base de dados que se atualiza automaticamente, e aí devo agradecer mais uma vez ao CHMT que nos disponibilizou um técnico de informática que nos ajudou nessa área. À medida que vamos introduzindo os dados a base de dados vai-se atualizando e a minha assistente técnica tem sempre tudo em dia.

Desconfinar é voltar à vida normal antes da pandemia chegar, ou não voltaremos a ter essa vida normal?

Não. Nunca mais na nossa vida vamos viver como vivemos até março de 2020. Repare, este confinamento levou a que agora, depois de desconfinar [outra coisa é saber se estamos a desconfinar bem ou não] levou a que as pessoas estejam afastadas umas das outras. E isto é um sentimento que vai ficar. Eu tenho um irmão com 67 anos e a primeira vez que o vi nesta fase ficamos a dois metros um do outro. E acho que este é um hábito que nos vai ficar. Enquanto não tivermos um a vacina, uma imunidade de grupo dada pela doença [creio que nunca a vamos ter], mesmo depois disso vamos estar sempre receosos.

Tem receio que após o verão possa chegar uma segunda vaga?

Tenho. E tenho receio disso depois das férias. Quando chegar o tempo mais frio, o tempo das gripes normais. Confundem-se os sintomas, porque os sintomas deste SARS-COV2, desta COVID, são os sintomas de uma gripe normal.

Estaremos mais bem preparados, a comunidade?

Penso que sim. E, espero estar enganada, mas se acontecer uma segunda vaga irão aceitar melhor as medidas que terão de ser tomadas.

E a Maria dos Anjos, a mulher, como é que tem vivido esta “crise”?

Eu vivo só com o meu marido [o meu filho já está a viver e trabalhar em Lisboa] e ele é empresário e tem algum receio disto e tem compreendido isso. Preocupa-me que as pessoas não entendam esta situação…

tem tempo para si? Para a família?

Não [risos] não tenho tempo para mim, mas enfim, temos de o ir arranjando. 80 por cento dos dias almoço até aqui em frente aos computadores a comer e ver análises e relatórios. E este fim de semana estava aqui e recebi fotografias que o meu marido mandou porque andava lá em casa a arranjar uns vasos de flores. Eu não tenho tempo para isso.

 

"Não. Nunca mais na nossa vida vamos viver como vivemos até março de 2020"

 

É abordada por amigos, pessoas próximas sobre estes temas?

Além de ser abordada na rua, até por pessoas que não conheço [mas que me conhecem a mim], mas sobretudo pela família. Perguntam-me o que é que devem fazer nesta ou naquela situação.

Consegue fazer a vida normal e abstrair-se da pandemia?

Não, não consigo. Sonho muitas vezes com estas situações todas. Mas dou graças a Deus porque tenho conseguido dormir. Não uma noite inteira [acordo muita vez], mas consigo adormecer. Mesmo o meu computador pessoal [um portátil em cima da mesa ao lado do desktop] fica aqui, só o levo ao fim de semana. E o que faço em casa é ler os Decretos, as Leis, as orientações da Direção Geral, quando há tempo.

Quando vai às compras analisa comportamentos das pessoas, em relação às recomendações? Corrige esses comportamentos?

Às vezes digo [risos] sobretudo quando as pessoas usam mal as máscaras. Mas tento explicar porquê. Mas às vezes vejo coisas que só me apetecia dar umas palmadas às pessoas. Mas elas sabem. Nós temos aquela ideia “o azar bate sempre na porta ao lado”, por isso é que digo que se as pessoas tiverem casos na família ou muito próximos aí sentem melhor. Eu não acredito que, neste momento, não haja quem não saiba por a máscara, quem não saiba para onde tossir ou que têm de cumprir o afastamento. Mas as pessoas deixam… andar.

Vê televisão? O que é que procura?

Sim, vejo notícias. Sempre ligadas à COVID, porque se o meu marido me diz para vermos um filme, ao fim de cinco minutos adormeço.

A Maria dos Anjos e a médica de Saúde Pública estão sempre juntas, ou consegue separá-las, mesmo que por pouco tempo?

Sim, estão sempre juntas. Mesmo quando estou em família ou vou às compras, ao super, há sempre alguma coisa que puxa a médica de saúde pública.

Para finalizar, tem saudades de uma reunião de família ou de um “grande” almoço convívio com muitas pessoas?

Tenho. Muitas saudades. O último, de colegas de curso, foi em fevereiro e tenho saudades. Sabe, sou uma pessoa muito afetiva. Tenho irmão e sobrinhos e gosto de os juntar em casa. Tenho muitas saudades disso. 

 

 

Entrevista e fotos por Jerónimo Belo Jorge

* Entrevista feita a 1 de julho de 2020