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Afonso Reis Cabral ganhou prémio José Saramago

6/05/2019 às 00:00
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O Prémio Literário José Saramago foi atribuído ao escritor português Afonso Reis Cabral, 29 anos, pelo seu segundo romance, Pão de Açúcar, editado pela D. Quixote.

Recuperamos esta notícia de 6 de maio quando Afonso Reis Cabral passou por Abrantes no seu projeto de percorrer a Estrada Nacional 2, a pé, e com a publicação das crónicas dessa viagem.

 

Escritor que percorre a EN 2 a pé pernoitou em Abrantes

Afonso Reis Cabral, tem 29 anos, é o escritor vencedor do prémio Leya em 2014, e está com um novo desafio. Procura estórias novas, pessoas incríveis, no percurso da mítica Estrada Nacional 2. Mas uma viagem solitária e a pé.

Como escritor que é resolveu começar a fazer um diário de bordo, sem pretensões e, de repente, percebeu que tem seguidores a acompanhar os resumos diários da sua aventura.

Afonso Reis Cabral pernoitou em Abrantes este domingo e já na manhã desta segunda-feira

fez-se ao caminho para nova etapa de uma viagem cujo final ainda está distante, a cerca de 15 dias.

Em declarações à Antena Livre o escritor caminheiro revelou que já há uns anos teve conhecimento da estrada e dos percursos e porque “é uma janela extraordinária para o povo português. É uma maneira de descobrir pessoas novas, e o lado bom das pessoas”.

Sobre o percurso entre Vila de Rei e Abrantes sentiu alguma solidão até Andreus, passou por zonas fantásticas e ficou sensibilizado pelas ofertas de ajuda que teve das pessoas que se cruzavam com ele. Muitas perguntaram se precisava de alguma coisa. “Fiz o percurso pela estrada velha, pelo Penedo Furado, S. Domingos e Andreus”, explicou acrescentando que faz uma média de 30 quilómetros por dia e que este tempo mais fresco e com sol encoberto o ajuda imenso neste desafio.

A EN2 estende-se por 738 quilómetros e atravessa 11 distritos (Vila Real, Viseu, Coimbra, Castelo Branco, Leiria, Santarém, Portalegre, Évora, Setúbal, Beja e Faro), quatro serras, 11 rios e 32 concelhos.

  

Bruno Marques Centeio, Joaquim Santos, Afonso Reis Cabral, Elisabete Sousa e Luis Filipe Dias.

 

Diário do Caminho, por Afonso Reis Cabral

 Dia 14

" Vila de Rei-Abrantes / Barreiras do Tejo: 35 km (só faltam 334)

 

Como tem ritmo a Bossa Nova! Alcei-a no começo da jornada e pesou-me menos do que a mochila velha, cuja armação empenei. Também gastei os sabres de luz até ao sabugo mas já lhes pus outros calços. Falta-me substituir os pés para completar a revisão. Na hora do lobo (como ouvi Mário Cláudio chamar aos momentos em que a noite pesa), estive prestes a decidir que ainda me faltava metade. Depois adormeci e felizmente de manhã já tinha chegado a meio. Segui a assobiar pela estrada velha que converge com a variante larga no Sardoal. Descrente de que valesse o esforço, desci à praia do Penedo Furado pelo trilho íngreme da encosta. Caminhei descalço pela margem fria até os pés ficarem dormentes. Ocorrera-me que passear assim era como dar a mão a uma namorada, quando uma cobra se juntou a mim. Apanhei-a para observar melhor o brilho dos olhos e das escamas. Ela enrolou-se-me nos dedos protestando com a língua. Eu não a entendi mas ela disse “Liberta-me”. Na direção de Andreus, a estrada é uma tira de alcatrão esquecida de pessoas e de carros. Pus o Requiem de Mozart alto para não ser apenas eu a ouvi-lo mas os pinheiros e os fetos mantiveram-se indiferentes. Só se comovem com o vento. A determinado ponto, encontrei um tijolo pousado num pilarete. Nele alguém escrevera NÃO MEXER. Tamanha proibição, na Nacional 2 onde até o Requiem é permitido, foi tão inesperada e injustificada que eu só podia ter chegado a uma qualquer Árvore da Ciência do Bem e do Mal. Pouco antes, até conversara com uma cobra. Quase obedeci - preferia não descobrir que estava nu -, mas naquele isolamento dispensava bem a roupa. Agora o tijolo diz ꓤƎXƎW OⱯN porque o virei ao contrário. Talvez daqui para a frente tenha de caminhar rumo a leste em vez de para sul. Por enquanto, consegui chegar ao Tejo.

 

PS - Obrigado ao Bruno Marques Centeio pelo bolo, ao Joaquim Melo dos Santos pela boleia depois da jornada, ao Alberto Lopes pelo excelente alojamento e apoio, e ao Luís Dias pela ajuda de amanhã. "