Especial Produtos Regionais: Margarido's - Aqui, a tradição ainda é o que era

Região 2018-11-23

É uma empresa familiar e vai já na terceira geração. Na região não há quem nunca tenha ouvido falar ou não tenha tomado contacto com os seus produtos. Se falamos de carnes no concelho de Abrantes, associamos o nome Margarido's.

Começou com o meu avô António e, por caricato que pareça, o meu avô nada tinha a ver com esta área”, começa por nos contar Natália Margarido, sócia-gerente da empresa.

O meu avô começou por ser carpinteiro”, recorda, adiantando que “o meu avô tinha uns cunhados neste meio e ele lá achou que, se calhar, também conseguia. Foi ganhando conhecimentos e as irmãs da minha avó, que eram da zona de Mouriscas, tinham algumas receitas. E foi começar a fazer uns enchidos tradicionais e a abater um porquito ou dois”.

De Mouriscas, António Margarido ainda passou por Chainça até se estabelecer em Rossio ao Sul do Tejo, “onde fez o matadouro, já na altura com todas as condições, pois, para ele, as questões da limpeza eram extremamente importantes”.

Importância que passou do pai António para o filho Eduardo e que, assume a neta Natália, “vamos percebendo, tomando o gosto e não sabemos fazer de outra forma. E como o avô era perfecionista, eu também sou e gosto de ser”.

Nos anos 80, com a entrada de Portugal na CEE, as regras mudaram e a família Margarido teve que encerrar o matadouro em Rossio. Ainda procederam a abates noutros matadouros da região mas a qualidade não os deixou satisfeitos e “o meu pai e o meu tio decidiram fazer estas instalações”. A empresa Margarido's está, desde 1988, no Parque Industrial, em Alferrarede, “e, desde essa data, já fizemos três aumentos nas instalações”, avança Natália Margarido.

A empresa foi crescendo “e tivemos que nos ir adaptando”. Uma das alterações, na altura, “foi passarmos a ter produtos congelados”. Hoje em dia as pessoas têm à disposição “um saquinho só com um bife, ou dois, conforme a sua necessidade e também os restaurantes que precisam de embalagens maiores com um quilo ou mais”.

Para além dos congelados, Natália Margarido conta que “também quisemos enveredar por outras coisas, como os preparados de carne. São as espetadas, as almôndegas, os hambúrgueres... e tudo preparado, em grande parte, de forma manual. Seja nos enchidos ou na parte dos frescos, não há cá grandes máquinas”. A empresa apresenta ainda produtos já em cuvetes, “por ser mais fácil para os clientes”.

As receitas são basicamente as mesmas do tempo do avô António mas “tem que se fazer alguns ajustes porque os tempos mudam e os hábitos alimentares mudam com eles”. Uma das maiores alterações prende-se com a percentagem de sal que se colocava nos enchidos e que, hoje em dia, “é impensável”.

Nos Margarido's só se abatem fêmeas e “é uma tradição que já vem desde o tempo do meu avô”

A matéria-prima “é exclusivamente nacional”. “Temos bons produtores no país e não necessitamos de procurar no estrangeiro. Até o poderíamos fazer e talvez conseguíssemos preços mais em conta mas temos por princípio ajudar a economia do nosso país”, confessa a sócia-gerente.

Uma das curiosidades da empresa Margarido & Margarido, Lda prende-se “com uma tradição que já vem desde o tempo do meu avô”. Ali, só se abatem fêmeas “e para podermos ter só fêmeas temos que pagar um pouco mais caro. É aqui que enfrentamos algumas dificuldades em termos de concorrência porque as pessoas deixaram de dar importância à qualidade e só querem o melhor preço”, desabafa Natália. No entanto, “se deixarmos de utilizar somente fêmeas, as pessoas começam a notar. É que a diferença nota-se e não queremos defraudar os nossos clientes. Temos um mercado mais pequeno... paciência, mas garantimos que o produto é sempre igual”.

Na empresa faz-se o processo todo desde a matança, ao desmanche até ao produto final. “Nós temos a linha toda. Há muitas coisas em que temos que nos ir atualizando mas, no que podemos, tentamos fazer tudo à moda antiga”.

Na empresa trabalham, ao todo, entre supermercado, talho e fábrica, 42 pessoas, “o que já é uma máquina bem grande”.

O mercado é quase exclusivamente regional, entre concelho de Abrantes e limítrofes. Contudo, “temos alguns clientes pontuais, e vão aparecendo cada vez mais, que trabalham em Lisboa”.

Quanto aos produtos... o presunto continua a ser produzido, tudo o que são enchidos tradicionais como as morcelas, chouriços, paios, farinheiras... e todas as carnes frescas. O chourição ou o bacon são feitos também da forma tradicional. “Mantemos ainda os fumeiros a lenha e é esse tal sabor característico que as pessoas reconhecem”.

Desde há 3 anos que a empresa tem a ISO 9001, que é a norma que certifica os Sistemas de Gestão da Qualidade, “e isso trouxe-nos muitas vantagens, não só para o exterior como a nível interno”. “Veio formalizar e certificar coisas que já fazíamos, e fazíamos bem, mas agora está tudo por escrito. E isso dá garantias de que o produto sai sempre igual, é estável e seguro”.

O futuro, esse já está a ser precavido porque “já estamos a trabalhar na 4ª geração e eles gostam e já demonstram interesse”, diz Natália entre risos.

Patrícia Seixas