ESTA: A história que se vai escrevendo há 20 anos

Educação 2019-10-16

Há 20 anos, o edifício que já foi um tribunal, repartição das finanças e até, em tempos mais remotos, um Convento de Freiras, abriu portas à Escola Superior de Tecnologia de Abrantes (ESTA), do Instituto Politécnico de Tomar (IPT). Quem fez telintar as chaves da entrada pela primeira vez fez foi José Rosado. Inicialmente, até para “decorador de interiores” serviu; nos dias de hoje limita-se a desempenhar o seu cargo na secção dos recursos humanos.

Nos dias posteriores à data da estreia, os funcionários eram poucos, e aos poucos competia-lhes fazer o trabalho que posteriormente passou a ser de muitos. “No início tirava senhas de almoço, folhas de presença para os professores e o que fosse preciso…” – conta José Rosado. E, nesses primeiros tempos, também era muito comum ter de explicar aos cidadãos que impostos de selo já não se pagavam ali, como também já não era ali que se tiravam as licenças de caça.

Elsa Dias, a primeira cara que muitos encontraram no primeiro dia em que chegaram à ESTA, diz que se viveram muitas peripécias: “Chegaram-nos a dizer que devíamos escrever um livro com a quantidade de situações engraçadas que acontecem na ESTA.” Mas esta funcionária abrantina enaltece, sobretudo, o ambiente acolhedor e familiar que aqui se criou e ainda perdura. “Muitas vezes os pais ligavam e liga a pedir para tomarmos conta dos filhos. É um meio mais pequenino, é normal que o façam e nós sentimo-nos bem com isso. Se estão bem, nós também estamos bem. Há uma cumplicidade que não há nos meios grandes”.

Rubina Jassat foi uma das pioneiras. Não só na primeira turma de Comunicação Social, como também na presidência da Associação de Estudantes. O começo foi como abraçar um desconhecido, mas rapidamente se alterou: “Foi um choque. Éramos muitos a chorar. Cada um vindo de uma cidade diferente, estávamos meios perdidos e a tentar perceber onde eram as coisas, como iria ser a nossa vida… Este cenário não demorou muito a mudar. Algumas semanas depois, “Abrantes já era nosso”, desabafa Rubina. Tudo isto, em contexto praticamente familiar. A ex-aluna relembra que o ambiente foi desde logo tão acolhedor que as idas à sala dos computadores às tantas da noite de pijama e robe eram recorrentes. Mas sobretudo, tem gravado na memória que sempre sentiu “uma preocupação por parte dos docentes e funcionários quase paternal”.

O ambiente de proximidade que sempre caracterizou a ESTA foi decisivo para gerações de jovens que todos os anos chegavam dos mais variados pontos do país, incluindo ilhas, e também de outros países, como Cabo Verde, Brasil ou Turquia. Foram várias gerações que deram vida à cidade e que passaram a considerar Abrantes como a sua terra de adoção, animando-a com eventos como a Queima das Fitas e o Festival de Tunas.

Desde os primeiros tempos da ESTA que algumas caras conhecidas começaram a surgir em Abrantes. Algumas como docentes, outros para ministrar workshops, outros simplesmente para participar em palestras e conferências, como as que aconteciam nas Semanas da Comunicação. Nomes como Marcelo Rebelo de Sousa, Mário Soares, Freitas do Amaral, Manuel Monteiro, Carlos Pinto Coelho, Artur Agostinho, Maria Elisa, Júlio Magalhães, Nilton e Herman José estiveram na ESTA a convite da Licenciatura em Comunicação Social.

A aposta na tecnologia e na inovação tem sido uma constante na ESTA. A Licenciatura em Vídeo e Cinema Documental, que atualmente tem designação de Cinema Documental, veio para ser única em todo o país. “Naquela altura, em 2009, a palavra "recessão" começava a ser das mais utilizadas e havia um ambiente de desorientação face a uma crise financeira muito grave. A taxa de desemprego subia diariamente, o que intimidava qualquer estudante que estivesse a projetar a sua vida a médio prazo. Surgiu outra palavra que foi repetida até à exaustão: "austeridade". Conhecia situações de pessoas que não conseguiam pagar as rendas de casa, pessoas que de repente ficaram sem rendimentos, propinas por pagar… foi um período muito difícil. Os ciclos de crise têm uma única vantagem: podermos abrandar e refletir sobre outras vias de continuidade. Foi o que fiz. Trabalhei muito durante o curso, passava o tempo a estudar. O resultado disso foi uma Bolsa por Mérito, ou seja, recebi uma quantia que me permitiu compensar o que gastei em propinas” – testemunha João Luz, ex-aluno e atual professor e diretor do curso.

João Luz ingressou na ESTA com uma idade diferente da grande parte dos alunos. Tinha 38 anos e uma Licenciatura em Comunicação Empresarial concluída. Dado o panorama, era recorrente iniciar uma conversa com outros colegas com alguma ironia: “Bom, vocês tinham dois ou três anos quando vi este filme em estreia…”. E foi, justamente, com outros alunos com metade da sua idade que dividiu as várias casas por onde já passou enquanto estudante, na cidade de Abrantes. Desde há quatro anos, enquanto representante máximo do curso, tem vindo a trabalhar no sentido de melhorar a “qualidade” da Licenciatura em Cinema Documental.

Uma das apostas da Licenciatura em Cinema Documental tem sido a de convidar realizadores de destaque para ministrar os seminários de Realização, constituindo um mais valia para os estudantes. Entre eles destacam-se Hartmut Bitomsky, Manuel Mozos, Miguel Gonçalves Mendes e Cláudia Varejão. Para além disso, este curso tem se envolvido em vários projetos que contribuem para a promoção da região, como os documentários sobre a Festa dos Tabuleiros (Tomar), sobre a Semana Santa de Sardoal (candidata a Património Cultural Imaterial) e sobre Arqueologia Experimental (residências artísticas em Mação).

Uma forte ligação com o meio tem sido trabalhada, ao longo destes 20 anos, pelas diferentes áreas de formação da ESTA. No caso da Engenharia Mecânica, alunos e professores têm desenvolvido projetos de certificação energética, avaliação de ruído, desenvolvimento de produtos, perícia judicial. Têm também desenvolvido investigação e produção de produtos em materiais compósitos, assim como a criação e desenvolvimento de máquinas e equipamentos. Tudo isto em parceria com as autarquias de Abrantes e Tomar e com empresas e instituições, como a Agência Espacial Europeia (ESA), EDP, Mitsubishi e PEGOP.

Foi com a ideia de não se terem cursos de “lápis e papel”, mas sim tecnológicos, que, à data presidente da Câmara Municipal de Abrantes, Nélson de Carvalho decidiu avançar com aquilo que se ecoava há vários anos: “O projeto de instalar uma escola de ensino superior era uma coisa de que se falava muito, mas ouvia sempre dizer que era algo que se iria fazer com o Instituto Politécnico de Santarém e eu questionava-me acerca disso… se Tomar é aqui ao lado, se estamos na mesma sub-região Médio-Tejo… fui falar com quem devia, dirigi-me ao Ministério da Educação e tudo se fez rapidamente”, explica. E foi mesmo uma iniciativa que foi bem aceite pela população que, no fundo, já “esperava”. “Ter, numa cidade como esta, que é pequena, uma escola superior é, desde logo, manter aqui uma centena de jovens, isso tem um impacto muito grande. Os jovens sempre foram a parte mais irreverente e criativa. Trata-se de uma juvenilização. A Câmara fez tudo o que estava ao seu alcance para que tudo corresse bem e felizmente correu. É muito bom continuar a ver a comunidade académica por cá com a alegria e a capacidade de mudar as coisas. Num meio pequenino criam-se relações muito mais próximas, mais humanas”, remata o ex-presidente.

Com uma preocupação muito semelhante no que toca a servir a região do Médio Tejo e, sobretudo, o triângulo Abrantes-Tomar-Torres Novas, o então presidente do Instituto Politécnico de Tomar, professor António Pires da Silva, revela que “desde os primórdios da instituição houve preocupação “no prolongamento da ação formativa do IPT simultaneamente em Abrantes, e que toda a região beneficiasse”.

Desde 1999 até ao presente ano, 2019, Sofia Silva Mota foi um dos nomes que se manteve. “Lembro-me perfeitamente de ter sido colocada numa escola secundária de Elvas, onde cheguei a lecionar durante um mês, e de largar tudo para abraçar o projeto da ESTA. Na altura, éramos um grupo reduzido de docentes (seis) que se dedicaram à ESTA e conciliaram o seu crescimento profissional com o desenvolvimento da Escola. O Doutor Eugénio Pina de Almeida era o diretor de escola e, desde o início do seu mandato, integrei o gabinete de apoio à direção. Não posso deixar de referir que, 20 anos depois e para além de mim, três docentes da “comissão instaladora” da ESTA se mantêm afetos à Escola: a Doutora Maria Romana, a Doutora Marta Azevedo e o Engº Carlos Mora”, sublinha Sofia Mota, que partilha com quase toda a gente que porque aqui já passou o mesmo sentimento de carinho, isto pela “proximidade” de relações. E aqui mora a diferença: “O que nos distingue, para além da qualidade das nossas formações, é o facto de os nossos estudantes não serem um número numa pauta. Muito rapidamente os docentes e funcionários da escola conhecem cada estudante pelo nome e estão sempre disponíveis para os apoiar”.

Volvidos 20 anos, Sofia Silva Mota é agora o órgão máximo da ESTA. Apesar de considerar que “a missão foi cumprida”, a diretora pretende enfrentar novos desafios: “Queremos apostar numa ESTA que seja capaz de responder aos desafios da nossa sociedade moderna, sendo capaz de se evidenciar como centro de competências e de transferência de conhecimento ao nível regional e nacional, bem como de propiciar o acesso a uma oferta formativa atual, versátil e em consonância com as necessidades da sua região de influência, ao mesmo tempo que deverá ser suficientemente flexível para se adaptar rapidamente aos novos estímulos e às mudanças constantes, em benefício do desenvolvimento e da sustentabilidade da região e do país. Também queremos apostar numa ESTA mais interventiva na sociedade, contribuindo de forma dinâmica para um país e um mundo mais inteligente, inclusivo e solidário. A estes objetivos junta-se a construção das novas instalações no Parque de Ciência e Tecnologia - Tagus Valley, o que trará um novo alento e maior motivação a toda a comunidade académica”, termina.

Texto: Rita Pedroso

Fotos: DR