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Bemposta: Ascensão 2021 com religião, frango da festa e esperança no regresso em 2022 (C/ÁUDIO E FOTOS)

13/05/2021 às 22:25
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A pandemia continua a afetar a vida de todos. Se este fosse um ano normal, a manhã de Bemposta teria sido a mesma. O sol nasceria à mesma hora. A Estrada Nacional 2 não sairia do local por onde atravessa a aldeia.
A escola abriria as portas à mesma hora de sempre. Os cafés venderiam as bicas matinais da mesma forma. Continuaria a ser a Quinta-feira de Ascensão. A mesma de tantos outros anos.

Mas seria uma manhã diferente em Bemposta. As janelas das casas abririam as portadas para deixar entrar a alvorada e o aroma da festa. Da primeira festa do concelho, aquela que dizem “com orgulho” que “abre a época”.

O parque de festas estaria a pulular de vida desde cedo, a preparar o recinto para servir refeições, para receber o grupo de baile e para, ao fim do dia, receber de braços abertos os bempostenses.

As crianças da escola do primeiro ciclo iriam sair aos campos das redondezas, e não é preciso ir longe, para apanhar as espigas, o alecrim, a videira, a oliveira, o malmequer e as papoilas. E iriam chegar a casa com o ramo para, orgulhosamente, entregarem aos progenitores.

A missa começaria na mesma às 15 horas. Mas em vez de uma limitação de um terço a Igreja de Santa Maria do Rosário estaria à pinha para ouvir as palavras do Padre Manuel Mendonça. E no adro estaria uma pequena multidão que iria atrás do andor na procissão. E depois, depois era a primeira festa. O primeiro frango assado. O primeiro pé de dança. A primeira grande noite de animação. Só se pediria uma pequena colaboração do S. Pedro, para manter as noites mais amenas e sem chuva.

Mas a pandemia voltou a trocar as voltas às gentes de Bemposta. E sem a festa desta forma, há que reencontrar os parâmetros do ano passado e acrescentar mais alguma coisa.
Se a manhã foi de música, com uma viatura com equipamento de som a “acordar” Bemposta, foram também reforçados os pedidos para que as pessoas ficassem em casa. Até porque a igreja tem limitação de fiéis.
A missa estava, como sempre, prevista para depois de almoço e às três badaladas do sino o Padre Manuel Mendonça e os acólitos subiram ao altar para a celebração. Uma celebração feita em modo reduzido, mas sem nunca esquecer os que estão em casa, longe da terra, fora do país.

Depois, enquanto os fiéis ficam dentro a Igreja a rezar o Terço, uma viatura com uma imagem de Nossa Senhora do Rosário percorre as ruas de Bemposta. Não há procissão, mas o Pároco fez dois pedidos para esta Quinta-feira da Ascensão e Dia de Nossa Senhora de Fátima: que pudessem engalanar as janelas e sacadas ou as frontarias das casas para a passagem da Nossa Senhora e que pudessem ofertar uma flor à Santa. E depois, à chegada à Igreja Matriz, essas oferendas iriam ser depositadas junto à imagem que ladeia o altar.

Padre Manuel Mendonça

Entre a fé e a religiosidade do dia, há outra tradição que os mais velhos ou os professores teimam em não deixar perder. A Quinta-feira da Ascensão é o dia da Espiga. Por isso o professor António Tomás, por via dos impedimentos da pandemia, pediu ao presidente da Junta de Freguesia para arranjar umas espigas para as atividades das crianças do 3.º e 4.º anos. E foi esse momento que pudemos assistir.

O raminho da Espiga de trigo, com a papoila, com o alecrim, a videira, a oliveira e o malmequer foi explicado às crianças. E nas atividades desde dia que seria, igualmente, de festa para eles, fizeram atividades de expressão plástica. Desenhos sobre o Dia da Espiga.

António Tomás, a meio de um intervalo explicou à Antena Livre aquilo que seria este dia para a criançada.

António Tomás, professor 1.º ciclo

E à hora de almoço pudemos ver os desenhos dos mais novos, tendo sido escolhido um, aleatoriamente, para podermos ilustrar esta nossa reportagem. Nestas coisas, temos de olhar para as crianças e perceber que o dia é o mesmo para todos, mas que cada petiz vê esse mesmo dia à luz da sua imaginação e daquilo que entende ser a sua visão.

A novidade este ano foi um serviço de restaurante que a Sociedade preparou para os bempostenses. Qualquer coisa do género: se as pessoas não podem vir almoçar ou jantar à Festa, a Festa “vai” almoçar ou jantar a casa das pessoas.

O frango assado a Bemposta, dizem lá na terra, é o melhor das festas. Por isso uma equipa desde manhã cedo preparou os frangos com o sal e os temperos necessários para poderem ir à grelha mais perto do meio-dia.

E a acompanhar uma batata frita caseira que “não é de pacote”. Ah, e com um pormenor importante. Para quem não tem mobilidade para ir “levantar” o frango da festa foi criado um serviço de entregas em casa. Que diga o Filipe Oliveira que vestiu o papel de estafeta e passou parte do dia entre a cozinha do largo das festas e as casas de quem fez o pedido.

Ao que percebemos correu tão bem que terá, seguramente, de haver reforço de stock para que se repita o serviço no sábado. Porque a Festa, neste modo, tem dois dias.

Manuel João Alves, presidente da Junta de Freguesia, explicou que o desenho teve de ser este porque a pandemia não desarma, ainda. E em conversa franca, para além de explicar, aquilo que se iria passar o autarca não se escudou a falar sobre estes tempos difíceis.

A pandemia trouxe um outro olhar para os autarcas. A necessidade de perceberem se as pessoas que tinham de confinar precisavam de algum apoio tornou-se no prato do dia. E alguns avisos para alguns menos cuidadosos nessas obrigações pandémicas.

Manual João Alves disse que alguns projetos tiveram de “ser adiados” por via das contingências provocadas pelo coronavírus.

Aponta a necessidade de aumentar a oferta de habitação para fixar mais gente na terra, um processo que pode ganhar mais espaços brevemente.

Manuel João Alves, presidente JF Bemposta

A Ascensão, em Bemposta, ainda não foi como a terra nos habituou. Não houve, ainda, a primeira festa da época. Mas para os bempostenses houve, pelo menos, o frango da Festa e a esperança que o próximo ano volte a trazer a animação, a fé e o convívio que nos foi vedado a todos desde março de 2020.

Esse sentimento da Ascensão, mesmo sem a festa, continua a fervilhar nos corpos dos habitantes de Bemposta.