RÚBRICA: ESQUIZOFRENIA MUSICAL #3...por Pedro Moleiro | LEIA AQUI!

Música 2019-05-16
Pedro Moleiro
Pedro Moleiro

Saudações esquizofrénicas caríssimos leitores!

E não é que o Conan foi de vela, logo na primeira meia-final do Festival Eurovisão da Canção!

Como Telavive fica num território que, há sete décadas, é fustigado por uma sangrenta e revoltante guerra, ligar de lá para o céu deve suportar custos de roaming altíssimos que ele, ao primeiro impulso, deve ter ficado sem saldo no «telelé». Precisava de um Krava, mas, tal como o rapaz do futuro, Conan Osiris não colecciona obras d’arte e o seu património não se resume a uma garagem no Funchal, logo não lhe concederam o merecido crédito e a sua participação no certame fora morta, tão morta como a saudade atingida pela flecha da indiferença!

Contudo, apesar da desilusão, há motivos que sobram para sorrir! =D

Já aproveitaram estes tórridos dias de Maio para ir molhar os pezinhos a uma praia fluvial?

Só no nosso Médio Tejo, existem cinco certificadas com bandeira azul: Agroal, Aldeia do Mato, Bostelim, Carvoeiro e Fontes; onde, tenho a certeza, podem desfrutar de belos momentos de sueto, tais como, ler esta infame rúbrica nos vossos dispositivos móveis, enquanto apanham um belo banho de sol à beira rio.

Este pequeno momento de exaltação de cinco das várias maravilhas existentes na região, em nada se comparam ao que assisti na XIV Gala Antena Livre e Jornal de Abrantes.

Realizado no passado Sábado, o evento foi uma ode ao que de melhor se faz por cá, galardoando, não só a Música, mas, também, a Cultura, o Desporto, a Inovação, a Responsabilidade Social, a Educação, Empresa, Comunicação Nacional e Personalidade Carreira.

Como isto que estão a ler se deve debruçar sobre néctares auditivos, como já devem saber, os laureados nessa área foram o David Antunes e Simone de Oliveira.

O músico, natural da aldeia de Verdelho, no município de Santarém, exclamou que tivera sido o primeiro prémio da sua carreira e, em jeito de agradecimento, tocara, em primeira mão, o seu futuro single «Tarde de Mais» que, segundo o próprio, é a sua «Paixão» de Rui Veloso. Um tema que retracta o distanciamento, a que todos nós estamos votados, ao sermos «reféns» do vasto «mundo que temos ao dispor de uma vidraça», descorando, frequentemente, o melhor que temos na nossa vida.

De seguida, ouviu-se a ovação da noite!

Simone de Oliveira sobe ao palco para receber o seu galardão.

Confesso que nunca fui especial admirador do seu trabalho e, por vários momentos, me questionei sobre a veneração que lhe era feita.

O meu pensamento não poderia estar mais errado!

Naquela noite percebi o porquê de Simone ser tão acarinhada pelo público.

Simone é mais que aquela chegada apoteótica a Santa Apolónia em 1969! É uma voz que, outrora, num país bafiento e cheio de falsos moralismos judaico-cristãos, cantara «quem faz um filho, fá-lo por gosto» para uma Europa nutrida por um profundo desdém a Portugal! É uma senhora que já vivera diversas amarguras na vida e que, numa sociedade imediatista e cada vez mais fútil, assume as marcas da sua idade sem qualquer tipo de pruridos.

É vista, por entre muitos, como uma verdadeira «força da natureza»! Uma mulher que não verga às adversidades!

Fazendo um paralelismo bacoco com o futebol, não é normal que o meu Sporting Clube de Portugal continue a encher estádios por onde joga, mesmo quando já não ganha o campeonato nacional há 17 anos.

É um amor que, muitas vezes não se entende! Sente-se e pronto!

Mesmo continuando a não ser ouvinte da sua música, naquela noite aprendi que, sem a maior margem para dúvidas, o que enaltece Simone e outros artistas imortais, é esse amor, quase transcendental, que o seu público tem por eles e pela obra que nos deixam.

Prosseguindo por esta toada melancólica, foi com bastante gáudio que assisti ao anunciar do regresso da velhinha Rádio Tágide (e o uso da palavra velhinha não foi por acaso). Sobre o lema «A Rádio dos Bons Velhos Tempos», a estação deixou de ser tramagalense, nos saudosos 96.7 MHz, para ser do mundo em www.radiotagide.pt/. Uma rádio de oldies, cuja sua panóplia musical se distingue das suas congéneres no FM.

Estejam atentos!

Por fim, gostaria de vos dizer que também fui premiado naquela noite.

Ah, pois é! Este ser que vos escreve tirou um retrato com o vencedor do Personalidade Carreira; nada mais, nada menos que o Senhor Fernando Correia que, desde tenra idade, o oiço, primeiro naqueles infernais relatos do Euro 2004, em dupla com o saudoso Jorge Perestrelo, bem como, no programa Lugar Cativo, no defunto Rádio Clube.

Até ao próximo texto! ????.

PEDRO MOLEIRO

Segundo a Sociedade Russa de Psicologia, a Esquizofrenia é uma doença mental endógena progressiva, caracterizada pela dissociação entre a realidade e o ilusório, caracterizando-se através de delírios, alucinações auditivas e perturbações formais do pensamento. 

Mas o que é que uma rubrica sobre música pode ter a ver com essa madrasta patologia!? – deve ser o que estais a pensar! 

Vão ver que vai fazer sentido após lerem as seguintes palavras.

A minha relação entre a música e a rádio é quase umbilical.

Longe vão os tempos em que, bastante petiz, ouvia religiosamente com a minha avó, a saudosa Rádio Tágide (96.7 FM Estéreo – A sua rádio, a sua rádio…). Aí, entre programas míticos como o «677 – Linha Livre» (Discos Pedidos) e os históricos anúncios como «Tipografia Água d’Ouro», «Hora Louis Lacroix», «Restaurante “O Barraqueiro”» e «Móveis André no Pego» - cujas bases sonoras iam desde do Eurodance em «Better Of Alone» de Alice DeeJay, à loucura em «Wuthering Heights» de Kate Bush, passando pelo pimba magôto (como diria o cronista João Miguel Tavares) de Quim Barreiros nos versos «Ai que cheirinho que vem da cozinha…» e acabando nos cantares populares do Rancho Folclórico da Casa do Povo do Pego.

Lembro-me, com muita ternura, a vez em que falei, em directo, com Lurdes Gonçalves para pedir o tema «Parabéns (Hoje é o teu dia)» do Batatoon. Na altura, algures em Novembro de 2001, estava a celebrar o meu sétimo aniversário. Era o Spotify da época… 

Mas as minhas influências radiofónicas não se ficam pela Tágide.

Durante anos, o auto-rádio da minha mãe alternava entre o Jogo da Mala da Emissora Católica Portuguesa e o Programa da Manhã da Rádio Comercial – A Rádio Rock (pagava para tê-la de volta), onde Nuno Markl, Pedro Ribeiro e Maria de Vasconcelos animavam as manhãs, sempre com a melhor música. 

Dizem que os anos iniciais moldam a vida de um ser humano pois, alterno entre as malhas mais rockeiras e os clássicos mais gloriosos da nossa música.
Aí já se nota alguns traços da patologia anteriormente descrita. Obrigado mãe! =D

De seguida, já a entrar na puberdade, passei por aquela febre de ouvir, sistematicamente, a Cidade FM. Apesar de hoje em dia não me rever naquele estilo, posso dizer que aquela fase não me fez mal nenhum. A estação era bem mais ecléctica do que é hoje, tendo como referências Pedro Marques, Elsa Teixeira, a Verinha Mágica (sim, a Vera Fernandes da Comercial), Miguel Simões, Wilson Honrado ou Joana Azevedo, aos quais agradeço os conhecimentos de Hip-Hop, R&B, Nu Metal e Música de Dança que batia na altura. 

Por fim, pouco antes de rumar a lides universitárias, voltei ao meu universo rockeiro que deixara para trás muito petiz, muito por influências dos meus colegas e amigos de secundário. Longas tardes, entre as primeiras cervejas e algumas travessuras, tivemos a ouvir e debater Nirvana, Pearl Jam, SOAD, Foo Fighters, Linkin Park, Evanescense, Soundgarden, Guns N’ Roses, Blind Zero, Faith No More, Oasis, Blur, Alice in Chains, Iron Maiden, Moonspell, Tarantula, Pink Floyd, Godsmack, Limp Bizkit, Slikpnot, entre outras bandas. Éramos um bando de putos parvos e borbulhentos, desfasados do mainstream que vigorava na altura. E felizmente, ainda o sou!

Foi por essa altura que me tornei um fan boy da Antena 3, numa fase em que ainda era «a rádio da primeira vez» e onde conheci os meus gurus da música e comunicação, entre os quais, Fernando Alvim, Ana Galvão, Mónica Mendes, Diogo Beja, Álvaro Costa, Henrique Amaro, Nuno Calado, Luís Oliveira, Pedro Costa, Joana Marques, Raquel Bulha e, mais tarde, Tiago Ribeiro, Inês Lopes Gonçalves e Daniel Belo. 

Com eles aprendi que se pode falar de assuntos sérios, de música ou de algumas trivialidades, sem usar aquele tom sério e carrancudo, mas também sem se cair na estupidez de tratar o seu auditório com expressões bacocas como «Como é que é, meu puto!». Sobretudo, tiraram-me do tédio muitas das vezes e enriqueceram-me culturalmente. Com eles aprendi que há muito mais mundo para lá do que é comumente audível e que, como diria o lobo António Sérgio, tem que haver o «direito à diferença». 

Por fim, todas estas condicionantes patológicas aprimoraram-se quando fui estudar para uma «Nova Lisboa» multicultural, onde em 4 anos, passou de uma capital semi-deserta, para um dos principais centros turísticos da Europa, onde convivi com gente com muito mais mundo, de várias latitudes e com outras perspectivas de vida… 

Com tudo isto, ainda não estão convencidos da minha patologia?