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26 set 2021
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Cultura

«Ter a Grécia e Apolo como companhias», por Luís Barbosa

1/07/2021 às 09:28
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SALPICOS DE CULTURA...



Ter a Grécia e Apolo como companhias”

Alberto, quem é o Alberto? Bem, trata-se de um amigo por quem tenho admiração. A amizade não é coisa que se faça com facilidade. No caso do Alberto, ser amigos foi fenómeno que aconteceu um pouco espontaneamente. Estávamos num seminário numa aldeia do Ribatejo e o tema era o “O Touro como símbolo mitológico”. Ambos ouvíamos em silêncio as diferentes intervenções. Ficámos na mesma mesa ao almoço e, como é normal nestas andanças, lá fomos trocando algumas palavras de conveniência.

Contudo, cedo nos apercebemos que sobre o animal em questão tínhamos algumas ideias comuns. À noite, ao jantar, trocámos ideias e opiniões de uma forma mais particular, e a amizade nasceu sem que tivéssemos feito grandes esforços.

Com o andar do tempo fui percebendo que o Alberto é um amigo algo particular. Não sendo homem de grandes extroversões sentimentais, ao invés, é algo contido na maneira de contactar. Não usando o telemóvel com muita frequência, faz chamadas espaçadas e vai sabendo com regularidade as informações de quem lhe interessa ter notícias. Deste amigo vim a saber que é pessoa muito ligada ao turismo, e que por conveniências profissionais tem andado por muito lado.

Soube que um dos sítios onde mais se radicou foi na Grécia, e soube também que lá deixou raízes. Também fiquei a saber que tinha voltado a Portugal, porque com saudades da mãe que habita o nosso burgo, e com a esperança de poder ser pessoa ativa no desenvolvimento da região onde ela habita, resolveu voltar e lançar-se numa tentativa de montar um empreendimento turístico.

Na altura em que estabelecemos contacto, o Alberto tinha começado a fazer funcionar o seu projeto e pouco depois vim encontra-lo, na região onde estava a operar, algo satisfeito. Contudo, posteriormente, vim a sabê-lo apreensivo e mais recentemente, em consequência das dificuldades que se têm abatido sobre o país, muito preocupado.

Por via de não sermos muito de estar sempre a ligar o telefone para contactarmos, estivemos alguns meses sem trocar notícias. Porém, lembrando-me de saber dele algo de novo, peguei no telemóvel e resolvi ligar-lhe. O Alberto atendeu rápido, e um “é pá, estás bem, como vai isso”, foi a forma como iniciámos a conversa. Contudo notei-lhe na voz algo de estranho, e de imediato tentei saber o porquê de tal sentir. Então o Alberto, fazendo questão de me pedir que não estranhasse não ter ligado, informou-me qual a razão de estar menos bem.

A primeira informação que me transmitiu foi que eu estava a apanhá-lo na Grécia, país para onde, em última instância, tinha optado deslocar-se. Tendo eu ficado um pouco surpreso perguntei-lhe porque optara pelo regresso à Grécia. Em resposta disse-me que as coisas em Portugal tinham corrido mal. Porquê? Porque face às dificuldades trazidas pelas questões da depressão económica, e da atual pandemia, tinha sido forçado a encerrar a empresa que tinha montado.

Bem, tentei ser agradável para com o Alberto dizendo-lhe que tivesse esperança, e que atrás de uma tempestade normalmente vem a bonança. A chamada foi rápida, e em jeito de fim de contacto o Alberto deixou-me uma frase que muito me tem feito pensar: “Sabes? A vida é mesmo assim”. E como reforço emocional foi-me dizendo quemal ou bem lá se ia arranjando, eporque nele a esperança não tinha morrido contavaque “Apolo”, à boa maneira grega, certamente não se ia esquecer dele.

Despedi-me do Alberto desejando-lhe que as coisas lhe corressem a contento, mas isto de esperar que o tal deus da mitologia grega o pudesse ajudar foi coisa que me ficou na ideia. Por isso, chegado a casa, resolvi procurar nos meus “canhenhos” algo que me reavivasse a memória sobre este deus. Lembrei-me então de voltar ao contacto com a obra de Marília P. Futre Pinheiro, titulada “Mitos e Lendas da Grécia Antiga”, editada pela Clássica Editora em 2010. Fi-lo porque entendendo que a obra se constitui um belo estudo sobre a cultura Grega, apresenta, de forma simples, mas explícita, muito do que há a saber sobre os deuses gregos.

Sobre Apolo a autora, na página 283 informa que esta figura mítica é um deus oracular, e sobre o mesmo escreve o que passo a citar: “«Ser belo como um deus» significa «belo como Apolo», deus tantas vezes cantado pelos poetas e tão frequentemente celebrado pelos artistas. É por causa dessa aura, que lhe advém da literatura e da arte, que ele se nos tornou tão familiar, mais talvez que qualquer outra divindade do Olimpo, apresentando-se-nos como a verdadeira encarnação do espírito helénico”.

Depois de ler o que a autora escreve sobre Apolo, fiquei a pensar duas coisas. Primeiro que o Alberto retornou à Grécia porque sentiu ser nesse país que encontrou um bom refúgio para os dias menos bons que viveu em Portugal e percebi também que imaginando ter Apolo por companhia ele está obrigatoriamente a orientar-se para a essência do “belo”.

Curioso o exercício anterior, pensei. Ao fim e ao cabo, o meu amigo Alberto, à boa maneira do que a Psicologia bem preconiza como bom exercício mental, concebeu para si mesmo um excelente processo de autoajuda. Nele sobressaem tanto o retorno a um indicador de cultura milenar de que a Grécia continua a ser a fonte, como o apelo a uma figura mítica que o tempo sem tempo torna sempre presente. Fechando o livro de Marília Futre Pinheiro, disse de mim para comigo - boa maneira que o meu amigo Alberto encontrou para ir vencendo os ditames da adversidade.

Despeço-me com amizade,

Luís Barbosa*

*Investigador em psicologia e ciências da educação
SALPICOS DE CULTURA, uma parceria com a Associação Internacional de Estudos Sobre a Mente e o Pensamento (AIEMP)