OPINIÃO: “O Poder da Comunicação”, por Luís Barbosa

2021-04-05

SALPICOS DE CULTURA….

“O Poder da Comunicação”

Veja-se bem, agora que sou um homem confinado, o tempo ora parece que passa muito rapidamente, ora tenho a sensação que este confinamento nunca mais se vai embora, tenho tido por companheiros não só alguns livros que embora já tenha passado por eles os olhos não retive do seu conteúdo a devida nota, e tenho dedicado à televisão mais atenção que aquilo que era normal.

Bem, pese embora ter por perto as tais companhias, o facto é que sinto uma certa nostalgia de poder encontrar-me com parceiros com quem habitualmente bebia uns cafés. Pelo telefone, e utilizando algumas novas formas de “dialogar”, tenho constatado que os meus sentires vêm sendo comuns a outros com quem então partilho alguns minutos de falatório. Repare-se que aqui não digo conversar, porque estasnovas formas de comunicar não permitem a presença do “estar com o outro” que as conversaspresenciais possibilitam e que eu tanto aprecio.

No meu caso, tenho procurado lançar mão de livros e autores que me permitam compreender melhor alguns factos a que tenho assistido e que me deixam por vezes a pensar. Um deles, porque olho agora mais para a televisão, é o de constatarque as grelhas dos programas oscilam, em larga escala, entre programas de entretenimento,onde o apelo ao consumo é uma constante, e conversas sobre as coisas do futebol. Claro que aceito que entreter as pessoas seja um bom lenitivo para passar a amargura das lides domésticas, e também prevejo que falar de futebol deve ter boas audiências.  Contudo, acho que muitos dos programas a que assisto mais parecem encomendas de alguém que pediu que certas mensagens sejam divulgadas do que intervenções autónomas dos intervenientes que aparecem no écran. Porém, pese embora retenha que existem programas de boa qualidade, verifico duas coisas: que a exploração das emoções, particularmente daquelas que deixam angústia, tristeza e ansiedade, é um traço demasiado marcante no trabalho televisivo e que os tais programas de boa qualidade são transmitidos pela televisão normalmente a horas inoportunas.

Tenho refletido com algum cuidado sobre estas questões que reputo de “organização de chaves sociais”, e lembrando-me de voltar a ler um autor que em obra volumosa trata as coisas da comunicação de forma que considero respeitável, voltei a reler O Poder da Comunicação”. O livro tem autoria de Manuel Castells e é uma edição da Fundação Calouste Gulbenkian, datada de 2013.

O autor, depois de deixar dito qual o objetivo que o levou a escrever a obra, permite que se perceba que a sua intenção é ser isento de preconceitos face aos trabalhos das chamadas “redes de informação”. Mas ao ler o conteúdo da mesma verifica-se que, entre várias preocupações, tem como primeira a de analisar, de forma direta, as estratégias que visam influenciar as redes neuronais, ou seja, as mentes, dito de forma mais simples, as cabeçasdos possíveis consumidores de informação.

A páginas 220 da obra abre o capítulo titulado “O Enquadramento da Mente” com o seguinte parágrafo: “Os mecanismos de processamento da informação que relacionam o conteúdo e o formato da mensagem com os quadros existentes na mente são ativados por mensagens geradas no âmbito da comunicação”, e mais à frente continua deixando dito que: “O ódio, a ansiedade, o medo e a euforia são especialmente estimulantes e também se retêm na memória a longo prazo”.

Gosto do conteúdo desta obra. Porém, a sua leitura deixou-me algo mais a pensar. É que depois de refletir sobre o que o autor diz, fiquei com a ideia que muitos dos matraqueares continuados das mensagens que os média hoje nos transmitem, em particular as televisas, provocam efeitos de quase compulsão auditiva nos eventuais ouvintes. Não sou estudioso na matéria, mas retenho que de facto, não sei se por isso é que muitos médicos vêm referindo que a compulsão para o consumo vem aumentando significativamente. 

Claro que não quero ser aqui entendido como pessimista, mas aceitando que as fontes de informação, ou dito de outra maneira, os média, são cada vez mais influenciadas por estrategas de marketing que conhecem, em pormenor, as mais diversas formas de condicionar o ser humano, gostaria que o sentido da liberdade, e da comunicação saudável, se sobrepusessem a interesses que possam fazer com que mensagens estrategicamente formatadas sejam difundidas mais para tornar o homem um ser dependente de interesses ocultos indesejáveisque um indivíduo autónomo e independentecapaz de se subtrair a subterfúgios sociais desaconselháveis.

Despeço-me com amizade,

Luís Barbosa*

*Investigador em psicologia e ciências da educação
SALPICOS DE CULTURA, uma parceria com a Associação Internacional de Estudos Sobre a Mente e o Pensamento (AIEMP)