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13 mai 2021
Cultura

OPINIÃO: «Experiências Citadinas», por Luís Barbosa

27/04/2021 às 09:45
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SALPICOS DE CULTURA....

 

Experiências citadinas”

Volto de novo a uma revista de jornal. Sim, digo bem, de jornal. Faço-o com intenção, deixando expressa a ideia que, no jornalismo atual, existe tanto o chamado bom jornalismo como o mau. Eu faço as minhas escolhas, e quando algo me salta ao sentimento, deixando-me com alegria, procuro recrear o belo que a leitura desse artigo me deixou. Tenho este exercício como uma boa terapia.

Hoje, dia em que me dei ao trabalho de folhear algumas revistas de jornais que têm andado cá por casa, um pouco por todo o lado, tropecei numa do jornal Expresso, datada de 5 de Março, em que Alberto Manguel escreve um artigo a que dei redobrada atenção. O título do mesmo é “Aquiles e a Tartaruga Lusitana”. É interessante ler ao longo do texto os múltiplos mergulhos históricos e culturais que o autor vai propondo, e é não menos agradável deixar ir passando os olhos pelas diversas figuras de estilo com que o autor foi compondo a prosa do mesmo.

É fácil fazer-se uma leitura corrida que não se torne enfadonha, e depois de lido o artigo, dá-se conta que o autor é pessoa que conhece bem Lisboa, e que da mesma tem fortes recordações. Aqui encontrei eu uma forma de entrar em consonância com o autor. Porquê? Porque dizendo ele que tem saudades da Lisboa desconfinada, diz ainda que nela, antes da pandemia, vivia momentos que o deixavam felizes. Um deles, é o de atravessar a cidade de elétrico.

Diz ele que fazer esta viagem é realizar uma experiência magnífica. Porquê? Porque dado que o elétrico anda devagar, pode olhar-se a cidade com regalo. Acho que o autor tem razão. Mas no que a esta experiência toca posso até avaliá-la com outros olhares. É que, tendo eu sido nado e criado em Lisboa, provavelmente há mais anos que o autor, penso que posso pintar este quadro com mais nuances.

Lembro-me bem do que era ir do Largo da Graça, bairro antigo, à Basílica da Estrela, situada em parte mais nobre da cidade, em elétricos abertos, de bancos corridos, e onde a maioria dos ocupantes ia pendurada nos chamados estribos, também eles corridos ao longo do carro, onde o cobrador dos bilhetes, de mala pendurada ao ombro, ia saltando de paragem em paragem para fazer a cobrança dos mesmos. Era de todo divertido ouvir tocar a campainha do elétrico que só tocava quando se puxava uma correia que, presa ao teto da carruagem, balançava sobre as cabeças dos ocupantes, e que se tinha de tocar, uma só vez, para que alguém pudesse descer onde desejava, ou duas vezes quando o dito cobrador dava ordem ao condutor para que pusesse o carro a andar.

Claro que concordo com o autor quando ele enfatiza a ideia que só quando não se tinha pressa de chegar a que lugar fosse é que se utilizava o elétrico, porque, de fato, as viagens entre o Largo da Graça, onde agora quase só se vêm turistas e há uns anos atrás se encontrava a gente do bairro, e a Basílica da Estrela, eram demoradas. Até porque não só se tinha de descer a Calçada de S, Vicente e a do Limoeiro para se chegar à chamada baixa lisboeta, atravessar a rua da Conceição, subir a calçada de S. Francisco até ao Chiado, para depois se descer a Calçada do Combro e voltar a subir a da Estrela, junto ao atual Parlamento, a fim de que o elétrico parasse, por fim, mesmo em frente da Basílica. Porém, eu ainda me lembro de uma outra particularidade que na minha infância me empolgava. Ver como os chamados “boletineiros da Marconi”, empresa que detinha o monopólio das transmissões telegráficas em Portugal, corriam, montados em bicicletas, toda a cidade, digo bem, toda a cidade, subindo e descendo as ruas da mesma para irem entregar correspondência, normalmente telegramas, nas mais diversas portas e janelas, estivessem elas situadas em Alfama, na Mouraria, no Castelo, no Bairro Alto, na Madragoa, em Campo de Ourique, na Bica, em Marvila, ou na tal Graça, onde eu morava. A forma como andavam nas bicicletas era obra, quase parecendo os corredores que hoje tenho visto na televisão a subir e descer serras, por todo o mundo, quando são mostrados os seus feitos nas voltas a França, Itália ou Espanha. Só que na altura em que eu era menino, havia uma particularidade, estes chamados “boletineiros”, não raro, agarravam-se também aos elétricos, e deixavam-se ir ruas acima e abaixo, evitando os esforços de ter de subir ou descer os trilhos das ruas à conta do esforço das suas pernas. Os condutores dos elétricos nada lhes diziam, o cobrador deixava, e a rapaziada que ia pendurada nos estribos até os ajudava a agarrarem-se aos balaustres do elétrico.

Claro que esta última alusão aos sortilégios de ter vivido em Lisboa é de minha autoria, não do autor do artigo. Mas como fiquei sensível ao que no texto Alberto Manguel escreve sobre algo que foram muitas das minhas experiências passadas, pensei que não ficaria mal deixar ver como quando temos alguém que nos permite recordar o que de bonito e belo retemos na mente, até nos sentimos mais felizes. Então, não quis aqui deixar passar a oportunidade para agradecer ao autor o fato de, através do seu artigo, me ter permitido viver melhor alguns momentos do aborrecido confinamento a que tenho estado sujeito.

Despeço-me com amizade,

Luís Barbosa*

*Investigador em psicologia e ciências da educação
SALPICOS DE CULTURA, uma parceria com a Associação Internacional de Estudos Sobre a Mente e o Pensamento (AIEMP)