CRÓNICA: «Tem o nosso Eu uma dimensão cósmica?», por Luís Barbosa

2020-12-10
Luis Barbosa 013.JPG
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 SALPICOS DE CULTURA...

 

 

Tem o nosso Eu uma dimensão cósmica?”

 

Há já alguns anos, às voltas com as coisas da investigação, resolvi anunciar na academia que, segundo a minha ideia, quem pensa é a mente e não o cérebro, e que a dimensão do homem é cósmica. Era novato nas questões das discussões académicas, mas levado pela imensa necessidade de exteriorizar ideias, avancei mesmo, procurando dia a dia, as mais fundadas razões para fazer prevalecer as minhas convicções. Bem, devo dizer que a fatura paga por tal devaneio não foi pêra doce. Estudava em França, e na terra de Descarte, na altura, ou se pensava como ele, ou esta coisa de dizer algo fora do que vinha sendo corrente, tinha os seus custos.

As neurociências estavam no início e os estudos de Damásio também. Tropecei nestes dois embaraços, mas pouco a pouco fui ganhando ânimo para fazer valer as ideias que me norteavam. Hoje é com mais convicção que reforço os pensares anteriores. Claro que sinto não ser razoável aproveitar este pequeno texto para me pôr a dar lições sobre estas matérias, e o que acima deixo escrito não pode senão servir para introduzir o que a seguir vou expressar.

Não vou mais falar de mim, prometo. Ao invés irei tecer algumas considerações sobre alguém que me tem servido de almofada para as ideias que vou deixando expressas. Deepak Chopra é um investigador da nova vaga, e eu não posso senão dizer que dele sou leitor recente. Porém, trata temas que me são caros. Aborda a problemática da noção de tempo, as questões das energias, as temáticas da física quântica, interpela-se sobre a razão da vida e investiga os domínios da forma como o cérebro cria a mente. Sendo uma pessoa muito preocupada com a forma como os homens vão vivendo.

Fundou o Centro Chopra para o Bem-Estar, foi pioneiro no lançamento, divulgação e desenvolvimento da medicina integrativa e transformação pessoal, trabalha como professor-adjunto na Kellogg School of Management, da Universidade de Northwess na América, é professor-adjunto na Universidade de Columbia, e nos domínios da saúde dá aulas e investiga na universidade da Califórnia. Tem 85 livros publicados e o The Huffington Post classificou-o já como o 17º pensador mais influente do mundo e o 1º no campo da medicina.

Dele tenho algumas das suas obras, mas o livro que mais me surpreendeu foi um que escreveu de parceria com Menas Kafatos, este, doutorado em Física e professor de Física Computacional. A obra chama-se “Universo”, e tem por subtítulo “O que Acontece Quando a Ciência Moderna Desafia Tudo o que Sabemos Acerca da Realidade”. A obra está dividida em duas partes, a primeira tem por título “Os Derradeiros Mistérios” e a segunda “Aceitar o Nosso Eu Cósmico”. Li com redobrada atenção o que os autores escreveram. Mas, por impulso muito pessoal prendi-me mais ao que deixam dito na segunda parte, e muito em particular no que escrevem a páginas 179 num capítulo titulado “O Cérebro Cria a Mente?”.

Como se pode constatar o título é uma pergunta, o que deixa desde logo pressupor que muitas das questões que vão ser abordadas têm o intuito de interrogar todo o campo científico. Se dúvidas tivéssemos sobre a intenção anteriormente formulada citemos neste texto algumas das pressuposições que os autores escrevem. Logo no começo do capítulo lê-se:

Antes de o universo poder ter mente, temos de compreender as nossas próprias mentes. Isto faz todo o sentido. Não conseguimos ver a realidade através das mentes de golfinhos ou elefantes, muito embora ambas as espécies tenham cérebros bastante grandes, que poderiam funcionar a um nível extremamente elevado. É quase certo existir uma realidade dos golfinhos e uma realidade dos elefantes, feita à medida para se adaptar ao seu sistema nervoso. Já foi demonstrado que os golfinhos aprendem palavras, possuindo assim uma enorme afinidade com o ser humano, habitando uma realidade para além da nossa”

Bem, digo eu, se os golfinhos possuem uma realidade diferente da nossa, mas que tem com a humana similitudes, então, porque não aceitar que possa existir algo em nós e nos golfinhos que tenha uma dimensão cósmica que a tudo prevalece? Aqui apetece-me até formular uma segunda questão: porque não aceitar também que tanto nós humanos, como os golfinhos, e até mesmo os elefantes, possamos pertencer, em simultâneo, a uma determinada parte dessa dimensão? E se essa dimensão for mesmo uma inteligência cósmica? Deixamos a resposta a estas questões à consideração alheia. Não sem transcrevermos mais uma outra citação extraída da mesma página:

Os seres humanos não têm o exclusivo da realidade – apenas assumimos que sim, talvez devido ao nosso autoimposto sentido de superioridade.”

 

Despeço-me com amizade,

 

Luís Barbosa*

 

*Investigador em psicologia e ciências da educação
SALPICOS DE CULTURA, uma parceria com a Associação Internacional de Estudos Sobre a Mente e o Pensamento (AIEMP)