CRÓNICA: SALPICOS DE CULTURA: «Desenvolvimento e grupos de risco»

2020-05-11
Luis Barbosa
Luis Barbosa

Desenvolvimento e “grupos de risco”

Nos tempos conturbados que agora se vivem tenho de facto experimentado algumas emoções que estavam longe da minha imaginação. Claro que à semelhança de muitos dos que andam cá por este mundo, procuro acomodá-las aos momentos que se vão vivendo, pensando mesmo que face ao que vou vendo serei daqueles que a sorte vem bafejando.

Então porquê sentir-me algo estranho neste momento da vida? Se vivo no campo com minha mulher, companheira de longa caminhada, numa aldeia longe dos grandes aglomerados, se coisas de saúde lá se vão resolvendo, se tenho a família constituída, se o sustento felizmente não me vai faltando e se até tenho animais e árvores por companhia, porquê então sentir-me algo desconfortável face aos dias que se vão passando?

Bem, os filhos e netos, esses agora não me acompanham tanto, os vizinhos com quem trocava algumas larachas deixaram de ser contactos regulares, as lojas onde ia frequentemente comprar coisas do dia a dia estão fechadas e o andar nas ruas passou a ser algo difícil porque um tal vírus “covid 19” colocou-me, dada a minha idade, no estranho grupo a que chamam “pessoas de risco”.

Tenho ouvido todos os dias os diversos esclarecimentos que as diferentes entidades responsáveis pela governação da saúde e da economia em Portugal têm feito e, diga-se, de passagem que, pensando que estou perante pessoas de boa fé tenho, em termos gerais, concordado com as decisões que vêm tomando.

Contudo, olhando à minha volta vejo que muitas famílias já muito desarticuladas pela forma como o sistema socioeconómico anterior se vinha organizando, vivem hoje momentos muito mais difíceis: ora porque a problemática do desemprego lhes bateu à porta, ora porque responsabilidades financeiras passaram a ter um peso muito maior na sua já difícil tarefa de arranjar sustento, ora ainda porque alguns até sentem que têm de substituir a escola nas suas funções.

Conheço uns quantos que foram despedidos em vinte e quatro horas, outros que viviam, mas já não vivem, daquilo que na sua pequena loja iam comercializando, tenho contato com outros que despediram os poucos empregados com quem iam fazendo o seu negócio e sou amigo de alguns que pensam mesmo que o encerramento da sua pequena empresa é um acontecimento para o resto da vida.

Porque não sou perito em questões económicas tenho fraca possibilidade de discutir muito do que venho ouvindo dizer que se está a fazer, ou se vai fazer, para ajudar a equilibrar a vida dos chamados pequenos comerciantes, mas vou em contrapartida constatando que os donos das chamadas grandes superfícies, e dos negócios de monta, vão dizendo que as coisas lá se vão arranjando. Ainda bem, digo eu de mim para comigo.

Porém, um facto se tornou muito evidente. Nos chamados resumos feitos a propósito para esclarecer o país, quem regularmente ouço falar são os representantes desses chamados médios e grandes negócios. Este facto deixa-me sempre a pensar e a pergunta que faço a mim mesmo é quem representa em concreto os pequenos comerciantes que acima referi, alguns donos de lojas de comércio local que agora se encontram todas, ou quase todas, encerradas.

Penso muitas vezes que a desinformação é minha e que sou eu que estou desfasado da realidade existente. Porém, hoje mesmo, dia 20 de Abril, a minha dúvida ficou mais esclarecida. É que, estando atento a mais um dos muitos comunicados em que a televisão é fértil, constatei que o Sr. Presidente da República tinha-se encontrado com o representante das chamadas micro e pequenas empresas para dele ouvir o que os tais cidadãos anteriores têm para dizer e que, segundo palavras do dito representante, transmitidas em direto pela televisão a partir do palácio onde o encontro ocorreu, este representante terá ficado satisfeito, não só porque um alto representante da nação o ouviu, mas também porque o encontro permitiu que ficasse com a sensação de que o seu interlocutor se mostrou sensível à precária situação dos comerciantes de menor dimensão, que, segundo o mesmo representante dos micro e pequenos negociantes, estão, muitos deles, em situações desesperadas.

Constatei então duas coisas: afinal não ando assim tão desfasado da realidade como pensava, porque o tal cidadão representante das micro e pequenas lojecas até afirmou no final do seu encontro que o mesmo constituiu uma das raras vezes em que foi ouvido por um alto dignatário da nação. Depois acabei por perceber que não sou só eu que pertenço a um chamado “grupo de risco”. Os donos e empregados das tais lojas pequeninas também se sentem em risco.

Contente com as constatações anteriores? Não, pelo contrário. Porém, como sou homem de fé, e como a esperança nunca morre, tenho a convicção que atrás da tempestade virá a bonança. Despeço-me com amizade.

Despeço-me com amizade, até à próxima semana.

Luís Barbosa*

*Investigador em psicologia e ciências da educação
SALPICOS DE CULTURA, uma parceria com a Associação Internacional de Estudos Sobre a Mente e o Pensamento (AIEMP)