CRÓNICA: «Longevidade e maus tratos», por Luís Barbosa

2021-01-18
Luis Barbosa 17
Luis Barbosa 17

SALPICOS DE CULTURA....


“Longevidade e maus tratos”     

Há alguns dias, num grupo de trabalho onde me encontro envolvido, tratou-se a temática da longevidade. O assunto foi suscitado porque alguém referiu que notava num conjunto de pessoas com quem priva que essas pessoas, embora já tivessem idade avançada tinham deixado de falar tanto na morte, justamente porque se passaram a interessar mais por questões ligadas ao envelhecimento, e em extensão, começaram a discutir entre si o que uns e outros iam lendo na internet sobre a problemática da longevidade.

O grupo teve até a oportunidade de ouvir do companheiro que trazia a questão para cima da mesa a afirmação que a mudança das discussões em torno da morte para o tema da longevidade, tinha mesmo provocado no grupo de idosos uma mudança radical na ansiedade com que uns quantos viam os dias passar.

Fui dois que sublinhei ter sentido algo de semelhante nas aulas de desenvolvimento humano que tenho dado nalgumas universidades seniores e disse até que, na minha opinião, o amortecer da ansiedade tem justamente a ver com o fato de pessoas de longa idade em vez de discutirem a eventual chegada do fim da vida, passarem a ter a possibilidade de poderem pensar em viver mais do que tinham imaginado. Claro que discutidas umas primeiras questões, rapidamente se entrou na problemática de se saber como cada um de nós imaginava a possibilidade de haver um significativo prolongamento da vida.

Confesso que fui dos que ficou um pouco embaraçado. Não porque também mão me agrade saber que existe já muita gente a estudar tais hipóteses, mas porque tanto quanto me foi dado ler sobre o assunto ainda não encontrei uma resposta que me satisfizesse cabalmente. Já li desde estudos que dizem que de facto será possível fazer com a nossa vida decorra até aos 150 anos, até aos que afirmam que o limite do andar por cá é coisa que se encontra determinado nos fatores de envelhecimento dos órgãos que possuímos. Mais recentemente constatei mesmo que, um médico japonês encontra-se a estudar a hipótese de tornar possível transplantar toda a cabeça do ser humano, e com isso conseguir tornear muitas das questões geradas pelo envelhecimento.

Bem, não sei se o grupo de pessoas com quem o tal meu amigo se relaciona já entrou a discutir tais temáticas, mas que elas são coisa séria, não se deixam aqui dúvidas. Então, chegado a casa resolvi ir ao computador e ver o que nele se encontra sobre esta questão da longevidade. Não foi difícil encontrar fonte que me ajudasse. Numa página dedicada à qualidade de vida são apresentadas três lições sobre longevidade. O primeiro estudo trata das relações humanas e afirma que pessoas que tiveram infâncias felizes e que foram objeto de muito amor tendem a conseguir boas relações na vida adulta e a serem seguras. O segundo estudo avança com a ideia que quem aprendeu cedo a lidar com o stress torna-se uma pessoa mais tranquila, e o terceiro estudo entende que quem se habituou a despender muito tempo na relação com outras pessoas, consegue superar melhor os altos e baixos da própria vida.

Bem, depois de ler as ideias constantes destes três estudos, apeteceu-me dizer que o que li já minha mãe dizia. Porém, depois de me dedicar a falar com os meus botões dei comigo a pensar que provavelmente repetir as ideias anteriores não é assim tão desastroso. Porquê? Porque bastou ligar o botão da televisão para constatar que dois dos grandes temas da atualidade são, por um lado o fato de na Europa Portugal ser um país considerado problemático no que toca ao abandono dos idosos, por outro ser também uma das sociedades em que os maus tratos a crianças são coisa significativa.
Então, no fim acabei dizendo para comigo que tratar o tema da longevidade é mesmo assunto importante. Porém, atenção que não se esqueça que estes dois últimos a que me referi no parágrafo anterior não o são menos.

Despeço-me com amizade,

Luís Barbosa*
*Investigador em psicologia e ciências da educação
SALPICOS DE CULTURA, uma parceria com a Associação Internacional de Estudos Sobre a Mente e o Pensamento (AIEMP)