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26 set 2021
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Cultura

CRÓNICA: «Diálogo sobre o Amor», por Luís Barbosa

27/07/2021 às 09:16
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SALPICOS DE CULTURA....

 

"Diálogo sobre o Amor"

Confesso que nos últimos tempos vinha pensando que mais tarde, ou mais cedo, voltaríamos a ter os incêndios por companhia. Não querendo ser pessimista, bem pelo contrário, procurando que as mensagens negativas não sejam a minha carga mais recorrente, procuro sempre não me deixar excessivamente marcado pelo que de negativo vou vendo à minha volta.

Porém, desta vez, algo de surpreendente me veio transmitindo preocupações acrescidas, falo das cheias que um pouco por todo o mundo vão ocorrendo e da imensa devastação que vão provocando. As imagens que nos são transmitidas pela televisão, e as notícias que correm nos jornais e revistas, são bem elucidativas da forma como muitos seres humanos sofrem tais flagelos.

Porém, para além dos sentimentos que as mesmas permitem recolher, um outro não menos sensível nossa chega. A forma como determinados seres humanos invade o que não é seu para saquear, roubar, ou apenas destruir o que calha, é timbre de uma desumanidade difícil de explicar.

Claro que se remontarmos a tempos idos, e por vezes não muito longínquos, podemos ter bem em consideração que a destruição, o saque, a violação de seres humanos e até o assassinato, foram formas que muitos governantes e governados aceitaram como maneiras de agradecer a muitos dos que por si lutavam e venciam os inimigos. Mas, para quem, como nós, que num determinado momento da vida até pensou que tais maneiras de estar pertenciam ao passado, o que hoje vai vendo é, por vezes, constrangedor.

Sinto então muitas vezes necessidade de revisitar quem me ajude a recompor os sentimentos. Então, como é recorrente, lá vou procurar quem me possa servir de travesseiro. Desta vez socorri-me de Leão Hebreu. Porquê? Porque sendo um filósofo que reputo de homem muito sensível, tem no amor o seu tema de referência.

Filósofo que forma com Pedro da Fonseca e Francisco Sanches a chamada trindade maior do pensamento filosófico português do século XVI, disseca sobre o amor uma vasta teoria. Discorrendo sobre a essência do amor, a sua universalidade, a sua origem, e os seus efeitos, chega mesmo a conceber uma teoria do amor. É na obra “Diálogos de Amor” que melhor espelha as suas divagações. Foi em 2001 que a Imprensa Nacional – Casa da Moeda, publicou o livro e foi na página 135 que encontrei algo que me deixou mais de bem comigo mesmo. Porquê? Porque escrevendo sobre a Universalidade do Amor, e recuperando um diálogo entre duas personagens gregas, Sofia e Filon, o autor transmite aos leitores sentires que deixam a mente de cada um mais serena. Sofia, dialogando com Filon diz-lhe, passo a citar:

Admirável é o amor conjugal e recíproco da Terra e do Céu, bem como tudo quanto a Terra tem de propriedade de mulher e o Céu de marido, com os seus sete planetas correspondentes aos membros que concorrem na geração do esperma do homem. E já percebi que, segundo os astrólogos, cada um dos sete planetas está relacionado com um dos membros do homem, porém, não com aqueles que são apropriados à geração, mas sim com os membros exteriores da cabeça, feitos para servir à cognição sensível e interior”.

Filon responde dizendo:

É certo que os sete planetas têm algum ascendente sobre as sete cavidades que existem na cabeça e que servem ao sentido e ao conhecimento, a saber: o Sol, sobre o olho direito, a Lua, sobre o esquerdo (pois ambos são olhos do Céu); Saturno sobre o ouvido direito, e Júpiter sobre o esquerdo (ou ao contrário, segundo outros); Marte sobre a fossa nasal direita e Vénus sobre a esquerda (ou ao contrário, segundo outros); Mercúrio sobre a língua e a boca, porque é ele que superintende na fala e na doutrina. Isso, porém, não tira que, como dizem os astrólogos, presidam também a estes outros sete membros do corpo que concorrem na geração, segundo te disse”.

Bem, aqui não está saber se se é a favor ou contra as ideias transmitidas. Cada um que pense delas o que mais lhe aprouver. Contudo permitam que vos deixe dito que a leitura dos dois excertos anteriores, deixou-me a pensar. É que refletindo nas preocupações que enunciei anteriormente, congeminei que afinal, pese embora no momento sermos fustigados por imagens que nos transmitem tanto desamor, o amor é algo a que o homem vem dedicando, desde tempos remotos, muito estudo e preocupação. O exemplo aqui é a forma como já na Grécia antiga o tema, tal como hoje, era algo que se discutia na praça pública. Tenhamos então esperança, que este desígnio continue a marcar o caminhar do homem cá pela Terra.

 

Despeço-me com amizade,

 

Luís Barbosa*

 

*Investigador em psicologia e ciências da educação
SALPICOS DE CULTURA, uma parceria com a Associação Internacional de Estudos Sobre a Mente e o Pensamento (AIEMP)