CRÓNICA: «A Urgência de Eugénio de Andrade», por Luís Barbosa

2021-01-25
Luis Barbosa
Luis Barbosa

SALPICOS DE CULTURA…

 

                                                      “A Urgência de Eugénio de Andrade”


Não é certamente com pinceladas de alegria que se pode pintar uma imagem do tempo que vamos vivendo. Reconheça-se mesmo que os momentos são de enorme dificuldade. Chorar os mortos impõe-se, dar bênçãos aos que se vão libertando do Covid também parece apropriado, agradecer aos muitos que estão dando o melhor de si para que a vida dos outros se mantenha viva é preito que urge levar à prática. Mas também é momento para deixar bem expresso que é urgenteaumentar a responsabilidade social.

Neste pequeno texto, não quero escorregar para as tão estafadas alusões políticas sobre as responsabilidades que cada um possa ter na gestão da tormenta que constitui ir andando de parceria com a irregular e tormentosa forma como o tal vírus se vai manifestando. Quero antes aproveitar para fazer um exercício de aligeirar tensões, tendo, contudo, a intensão de que tal não seja julgado como ato de desvalorização do sofrimento alheio, ou até fuga a avaliações de circunstância, sobre a forma como vejo irem-se esgotando recursos financeiros, técnicos e sobretudo humanos, perante o desenvolvimento da pandemia que nos bateu à porta.

A poesia tem-me ajudado a passar os estranhos momentos de confinamento. Gosto de ler poesia, e é mesmo exercício que aconselho, pois parece-me que quando o faço, encontro sempre nos poemas um sentir de vida que quase se assemelha a um espelho que me aparece pela frente. Claro que nem todos os autores me tocam fundo, mas uns mais que outros constituem a minha prateleira de escolhas. Nela, Eugénio de Andrade ocupa um lugar particular. Por isso, quando estava a pensar em escrever o texto que agora deixo à consideração alheia, lembrei-me de algo que deste poeta já tinha lido e que, na altura, tinha até achado bem atual.

O poeta nasceu na freguesia de Póvoa de Almeida, no Fundão, ou seja, bem no interior do país, mas aos dez anos rumou para Lisboa. Em 1943 mudou-se para Coimbra. Conviveu com Miguel Torga e Eduardo Lourenço e exerceu durante 35 anos as funções de Inspetor Administrativo do Ministério da Saúde. Conviveu com imensa gente, tanto dentro do país como fora, mas o seu feitio levou-o a distanciar-se da chamada vida social. Teve uma vida literária intensa e veio a falecer em 2005.

Li deste poeta algumas das suas obras. Porém, uma delas prendeu-me mais a atenção. Porquê? Porque sendo escrito há já alguns anos parece um autêntico grito de chamada de atenção para os dias que vamos vivendo. O poema tem por título “URGENTEMENTE” e diz assim:

É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e aluz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.

Bem, não quero parecer pessimista, mas também não gostaria que me achassem irrealista. Porém, devo confessar que gostava que este grito de Eugénio de Andrade ecoasse sobre todos nós, como um silvo de esperança capaz de nos fazer pensar que depois da tempestade vem sempre a bonança.


Despeço-me com amizade,
Luís Barbosa*

*Investigador em psicologia e ciências da educação
SALPICOS DE CULTURA, uma parceria com a Associação Internacional de Estudos Sobre a Mente e o Pensamento

(AIEMP)