CRÓNICA: «A criança e a família», por Luís Barbosa

2021-02-21

SALPICOS DE CULTURA…

 

 “A criança e a família”

Nos dias que vão correndo não são só questões com os idosos que me chamam a atenção. Os problemas com crianças, de que os media dão conta, também me merecem reflexão acrescida. Claro que agora, por causa das questões escolares, tornou-se mais normal ter as crianças como alvo de problemas socias. Porém, estes últimos problemas não me fizeram esquecer outros de que, muito antes da pandemia, já as televisões davam conta. Penso mesmo que os maus tratos a crianças e o seu abandono eram, até há bem pouco tempo, temáticas que valiam quotas significativas nas audiências televisivas.

Ainda bem, digo eu de mim para comigo, porque sou ainda do tempo em que ser criança era ser-se alguém que não tinhavoz na sociedade o que só acontecia quando casava ou ia à tropa, pois até lá o lema era “cresce e aparece”, e se por acaso a criança ousava falar mais que a conta, lá tinha de ouvir a velha máxima “que a formiga não podia ter catarro”. Velhos tempos, dir-se-á. Bem, eu digo, contudo, que esses tempos ainda não são tão velhos quanto isso, até porque os tais programas televisivos bem nos mostram que em muito sítios a criança ainda não foi descoberta.

Ligado às questões da sociologia da família tenho mesmo para mim que o momento atual não é brilhante. Porquê? Porque se em muitos aspetos sociais se evoluiu, no que respeita à família vive-se dentro de um paradigma socioeconómico que valoriza justamente a sua desarticulação. Culpa de quem? pode perguntar-se. A resposta parece-me simples, certamente do homem.

Quando abordo este tema ocorre-me sempre reler uma obra que me parece muito interessante sobre as questões da família. O título da mesma é “Que tem a família para oferecer à criança? e a autoria da mesma é de Michel Lemay. A obra foi inicialmente publicada em França em 2001, e por significativa iniciativa da CLIMEPSI – Sociedade Médico-Psicológica, Ldª, sediada em Lisboa, foi reeditada em 2006. Logo na introdução se percebe que o conteúdo do livro contraria em muito o atual estado de coisas que vivem imensas famílias.

Sendo que é com regularidade que se ouve falar de divórcios, e que se vê discutir na televisão sobre questões de parentalidade, sobretudo dirimindo queme como, após separações, fica com a guarda das crianças, penso que ao ler-se logo o primeiro capítulo da referida introdução se podem reter ideias que devem ser refletidas. Leia-se então essa primeira parte da obra:

“A constituição de uma família é uma prodigiosa aventura de que os pais são os primeiros protagonistas. Nessa aventura, como em qualquer outra, há momentos de alegria e momentos de inquietude. Pode haver igualmente vicissitudes desconhecidas à partida, como conflitos, e até o desfazer de um meio que se desejava estável. O tamanho da família mudou, assim como as influências que se exercem sobre ela e os modelos educativos em vigor. Resulta daí, com frequência, alguma confusão nos adultos à procura de pontos de referência. Tudo isto conduz muitas vezes a esta questão lancinante: “Que tem a família para oferecer à criança?

Parece-me interessante este conjunto de ideias, mas há duas delas que me merecem mais reflexão: primeiro é o facto de a constituição de uma família ser sempre uma prodigiosa aventura levada a cabo por indivíduos que obrigatoriamente têm de se assumir progenitores. É um facto. Depois ser dito que quando as confusões aparecem são justamente esses progenitores que perdem os pontos de referência.

Porém, quando ouço muito dos programas sobre questões de decidir quem e como fica organizada a guarda das crianças, o que ressalta com muita evidência é que afinal, em muitos casos, quem perdeu os pontos de referência foi justamente a criança, sendo que hoje é ideia geralmente aceite que essa perda pode constituir, para ela, um estigma para toda a vida.

Bem, aceitemos que o paradigma de desmembramento das famílias possa já ter entrado em colapso, e tenhamos esperança que as novas formas de organizar a família sejam respostas adequadas. Porém parece-me bom ter em mente o que no livro se diz ainda, a páginas 119: “quando se organizar uma família é também bom saber dar, partilhar, ceder, recusar, interdizer, e negociar, tendo em conta que o tempo materno, é por vezes terrivelmente desorganizado”.

Despeço-me com amizade,

Luís Barbosa*

*Investigador em psicologia e ciências da educação
SALPICOS DE CULTURA, uma parceria com a Associação Internacional de Estudos Sobre a Mente e o Pensamento (AIEMP)