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Luís Damas: “Costumamos dizer que somos os médicos da Agricultura”

15/03/2017 às 00:00
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Luís Damas, de 53 anos, abrantino, foi eleito presidente da direção da Associação de Agricultores de Abrantes, Constância, Sardoal e Mação, para o triénio 2017 – 2019.

Para este novo mandato, Luís Damas pretende dar continuidade ao trabalho desenvolvido na Associação de Agricultores "na defesa da agricultura e da floresta da região".

Porquê é que decidiu agarrar este desafio?

Entrei nesta casa em 1992. Tive grandes diretores como o Eng. Luís Bairrão, José Rodrigues, António Grosso, etc, portanto houve um grande conhecimento que me foi passado. Ultimamente, trabalhei com o Pedro Grosso Dias, a Paula Albuquerque, e chegou o meu momento. Sempre fui o braço direito deles e foi-me colocado o desafio, ao que eu não podia dizer que não, porque realmente conheço bem esta casa.

Como é que a Associação principiou?

A Associação foi criada no dia 19 de dezembro de 1985, tem 31 anos. Os sócios fundadores foram Luís Bairrão, Luís Gonzala Moura Neves, Manuel Alves Espadinha, Ramiro Pereira Fiadeiro, António Castro, Manuel Gaia, António Roberto Paulino, Manuel Figueiredo e Augusto Dias Cordeiro. Estes homens tomaram a iniciativa de formar a Associação porque na altura havia somente uma Associação de Santarém que abrangia a nossa área de influência. Esta Associação de Santarém era a entidade que discutia com o sindicato os salários. Na altura, ficou claro que não podiam pagar o mesmo que pagavam aos agricultores de Santarém, porque os terrenos lá eram mais ricos, e os salários propostos não podiam ser acompanhados aqui. Outro motivo prendia-se com o facto de Santarém estar muito longe. Assim, aqueles sócios fundadores perceberam que eram capazes de se organizar e assim o fizeram. Na altura, fidelizaram-se na Confederação de Agricultores de Portugal (CAP) e deram início aos trabalhos.

Qual é o trabalho que fazem no terreno?

Tentamos que os nossos agricultores tenham toda a informação disponível. Como estamos dependentes de uma política agrícola europeia temos muitas regras. Às vezes é mais grave falhar uma regra do que falhar uma adubação. O incumprimento de uma regra corta uma parte ou total do subsídio que se recebe. A Associação estando ligada à CAP recebe informação todos os dias dos apoios que existem para as várias culturas. Por exemplo, até ao mês de março vão abrir as candidaturas aos agricultores para receberem os subsídios que têm direito. Falamos de subsídios à agricultura, porque também há incentivos aos projetos de investimento. Como estamos abrangidos pelo PRD 2020 tentamos enquadrar os novos projetos de investimento. Neste âmbito, são abrangidos os novos agricultores, como aqueles que querem fazer melhorias nas suas instalações agrícolas e também aqueles que apostam na área florestal. Nós somos um bom balcão de esclarecimento para quem quer iniciar atividade, mas também para quem já tem esta prática.

Como está a agricultura na nossa região?

Temos o norte com o minifúndio e a pequena propriedade e uma área florestal de eucaliptal e pinhal. Temos os dois lados do rio Tejo que nos dão um pouco das caraterísticas da Lezíria do Ribatejo. No nosso caso, o campo de Tramagal, Rossio e de Rio de Moinhos. São terrenos muito bons, onde se faz agricultura empresarial de cereais (milho, trigo) e culturas para as agroindústrias (ervilha, brócolos etc.). Depois temos o sul onde já se encontram características do Alentejo, onde temos o montado de sobro e outras espécies florestais (Eucalipto, Pinheiro Manso).

Em maior abundância, temos o olival, que durante uns anos esteve um pouco adormecido e hoje é um produto de excelência e tem ganho muito mercado como vinha com vários prémios. Temos ainda a cultura do milho, uma cultura com grande expressão na região, apesar do mercado a nível mundial ter havido nos últimos anos depreciação dos preços. Depois, temos as culturas para agro-indústria e agora estão a surgir novas culturas, as nogueiras, amendoeiras, framboesas amoras mirtilo morango . Já temos um núcleo de nogueiras com alguma dimensão na freguesia de Tramagal estendendo-se a Constância, onde está um dos melhores pomares da Europa. Por último, o investimento que está a surgir é de macieiras.

E a floresta? Como foi este verão? No concelho de Abrantes e Sardoal as coisas não correram muito bem…

Nós temos o que chamamos “o barril de pólvora” que está a ganhar alguma dimensão. De qualquer modo, tem-se efeito algum trabalho na prevenção, mas continuamos a ter ali um problema de condições de relevo, declives e a proximidade às populações. Quando acontece uma situação complicada provoca-se o pânico e os meios que estão afetos para os incêndios florestais têm prioridades, que são as pessoas e os bens e só depois a floresta.

Nós temos três equipas de sapadores florestais, compostas por 5 elementos, que fazem na época crítica vigilância armada. No incêndio do dia 23 de agosto, tínhamos uma equipa nas Fontes que foi a primeira a chegar e quando chegou viu logo que a situação era muito complicada devido ao vento e às projeções. Nesta altura de inverno, os nossos sapadores fazem silvicultura preventiva, o trabalho que não se vê e que não dá notícia de abertura de telejornais

O que carateriza a nossa floresta?

A Floresta tem as três espécies eleitas. O sobreiro, que nos dá a cortiça e também um ecossistema onde a pecuária é complementar este sistema. Temos o pinhal na parte norte e o eucalipto que está em crescimento a nível regional e nacional. Temos uma espécie nova que é o pinheiro manso, que dá o pinhão, o chamado ouro branco, que pode chegar aos 80 / 100 euros ao quilo. Assim sendo, o pinhal está a regredir, o eucalipto a aumentar, o sobreiro a manter-se e o pinheiro manso a ganhar novas áreas.

Como é que se trabalham territórios tão dispersos e diferentes?

Nós estamos num território bastante disperso e costumamos dizer que somos médicos da agricultura de clínica geral. Temos de saber de tudo e ajudar todos os sócios. Recentemente, fizemos um protocolo com a Câmara de Sardoal onde estamos todas as segundas e quartas semanas do mês à Terça-feira, durante a manhã, na Loja do Cidadão para estarmos mais perto dos agricultores. Estamos a tentar este modelo também em Constância. Em Mação, trabalhamos em estreita parceria com a AfloMação. Estamos na nossa sede em Arrifana, Abrantes, diariamente.

O que reserva 2017?

Estamos à procura de novos sócios e tentar estar mais perto dos que estão connosco. Trabalhamos para satisfazer os nossos associados e os nossos parceiros. Um trabalho de proximidade é o objetivo.

Joana Margarida Carvalho