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Castelo de Almourol e Tejo - um casamento de séculos

1/08/2019 às 00:00
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Visitar o Castelo de Almourol e o rio Tejo. A proposta para uma tarde ou um final de tarde, ali para os lados de Vila Nova da Barquinha.

A marcação tinha sido feita dias antes através de telefone para a Tritejo, a empresa que, em Barquinha, tem um barco movido a energia solar. O contacto foi muito simples e o dia e hora agendados de imediato. Seria a meio da tarde, viagem de barco e visita ao monumento templário e, depois, o “sunset” a bordo, no meio do Tejo.

No dia agendado, eu e a Carolina Ferreira, chegámos meia hora mais cedo ao cais de Tancos. Tarde simpática de Sol, depois de uma manhã nublada. O cais estava calmo, num dia de semana. Mas depressa ganhou movimento com uns jovens que iriam começar um treino de barcos a motor. Jovens de 12 anos que preparavam uma prova internacional na Rússia.

Enquanto a Carolina se entretém com algumas fotos, vejo, mais ao longe, um homem, já com alguma idade à pesca. Quando a Carolina me faz um sinal de que um peixe tinha picado o anzol fui andando até ao local do pescador. Desci os degraus até à beira rio enquanto o homem tirava o peixe. Conversa rápida e percebi que era uma fataça. Mais três quilos, seguramente. Joaquim Morcela contou que vai ali ao Tejo quase todos os dias. “Em vez de ir beber copos, venho à pesca. Mas nem gosto de peixe. Mas veja lá, este é grande”, diz o pescador que acrescenta, “hoje é mais complicado. Há menos peixe. Olhe, antigamente apanhávamos aqui bogas, barbos e carpas e as fataças. Hoje já não é assim. Há menos peixe mas depois também vieram os lúcio-perca e os siluros e o outro peixe começou a desaparecer”.

Deixamos o pescador ir à sua vida, com a fataça no saco, pois está a chegar a hora de embarcar na nossa viagem.

 

A “Ninfa do Tejo” movida a energia solar

16:38 chega ao cais o barco que nos vai fazer seguir até ao Castelo. Saem os passageiros que vinham da sua viagem, quando Paulo Lopes, um dos elementos da tripulação, nos pede para aguardar uns instantes. Quando a embarcação fica preparada subimos a bordo com a ajuda de Filipe Bento, o “capitão” da Ninfa do Tejo. De forma simples e simpática perguntam se é o batismo em viagens de barco. Ao negarmos a interação de diálogo começa. E enquanto vamos a sair para o rio é feita uma apresentação sumária da Tritejo, a empresa que suporta estas viagens e visitas.

“Começamos a atividade com um barco de madeira, o Chamusca, mas procuramos algo de diferente, que acrescentasse valor ao território. Foi aí que descobrimos o fabricante destes barcos, uma empresa no Algarve. Foi uma descoberta quase por acaso”, revela Filipe Bento enquanto vai rodando o “volante” do leme para nos levar para o meio do rio e, dessa forma, iniciarmos a subida de cerca de 3 quilómetros até ilha do Almourol.

Já são dois anos de experiência a fazer passeios no Tejo, pelo que os anfitriões, percebem logo que tipos de interesses têm os visitantes. Mas como esta “viagem” é de jornalistas tentam perceber qual o interesse para poderem dar a experiência que procuramos.

O barco tem capacidade para 12 pessoas, uma mesa central, uma ausência total de ruído. Indicam a localização dos painéis solares e onde se encontram as baterias. E para tranquilizar os passageiros deixam a informação de que nunca ficaram parados no meio do rio.

Sentados no “Ninfa do Tejo” ouvimos o rio, as fataças quando saltam na água, os pássaros que vamos vendo. “Ali está um corvo-marinho, invadiram o rio e comem o peixe mais pequeno. Além estão duas águias”, indica o Filipe enquanto subimos o rio.

Começamos a ver o Castelo de Almourol e a sua ilha, com muita vegetação. Ao longe percebe-se que há uma outra embarcação a recolher e largar turistas que, de máquina fotográfica a tiracolo, circulam sozinhos pela ilha e pelo monumento. Encostamos ao cais. O Filipe Bento despede-se de nós, com “até daqui a uma hora”. Passa a ser o Paulo Lopes o nosso interlocutor.

  

Paulo Lopes e Filipe Bento, da Tritejo, conduzem a embarcação no Tejo e a visita ao Castelo do Almourol

 

O Castelo dos Templários e a lenda do tesouro escondido

Assim que subimos a escadaria entramos no terrado entre arvoredo que, segundo Paulo Lopes, lá nos primórdios do Castelo não existiria. Supõe-se que o rio tivesse um caudal com uns metros de água bem acima do que temos atualmente.

O Castelo de Almourol tem cerca de 80 mil visitantes por ano e já registou este ano mais de 6 mil visitas guiadas.

Há um acesso pedonal desde o parque de contemplação, mas há sempre um barco que pode levar os turistas à ilha. Depois há a possibilidade de irmos à sede de concelho, Barquinha, para explorar melhor a história do Castelo e dos Templários no novo Centro de Interpretação Templário.

Deixamos essa parte para um outro dia e apontamos o foco às explicações do Paulo.

O Castelo é do tempo de D. Afonso Henriques, da reconquista cristã e da ordem dos cavaleiros Templários.

O Castelo de Almourol foi edificado em 1171 para a defesa do território a Norte do rio Tejo, quando após a reconquista se estava a estabilizar o território. “As linhas de defesa do Tejo foram fundamentais, na altura”.

Paulo Lopes vai situando o Castelo antes de subirmos ao seu interior. A ideia de Gualdim Pais, o maior cavaleiro da ordem e a quem ficou confiado este território. E adianta que a ideia de um Castelo numa ilha de difícil acesso, dado um caudal elevado do rio, pode ser a génese de quem o Almourol seria um posto, uma torre de vigia para o inimigo que estava do lado sul. Aliás, o Almourol tem linha de vista para a torre da Cardiga, na Golegã, e para a torre de Ozêzere que ficaria na foz do rio Zêzere perto de Constância. Paulo Lopes diz que esta teoria é sustentada naquilo que seria uma linha de comunicação visual com a sede da ordem, o Convento de Cristo, em Tomar. “Daqui, através das atalaias, e há muitas, podia ir uma informação de forma muito rápida até Tomar onde estava concentrada a força militar dos Templários”.

Quando começamos a entrar no Castelo, o Paulo chama-nos a atenção para as 8 torres que envolvem a torre central. Pode ser uma homenagem de Gualdim Pais aos 8 cavaleiros fundadores da Ordem dos Templários que estão à volta do grão-mestre fundador: Hugo de Payens”.

Depois, lá dentro, percebe-se que é um espaço muito curto. O nosso guia indica-nos os três níveis de barreiras criadas para defesa do próprio castelo. O local onde dormiriam os 20 ou vinte e poucos guerreiros cristãos que seriam a guarnição. Indica o local dos celeiros. E depois a torre com 12 metros de altura e uma porta aos 8 metros. “Se fossem atacados, punham as escadas e refugiavam-se lá em cima. Era a última linha de defesa”.

Como Gualdim Pais era um estratega muito bom o Castelo teria dois túneis de fuga que passavam por baixo do rio. Um para a margem norte e outra para sul, para um local onde terá existido a Igreja de Santa Maria do Almourol.

Muitos acreditam que seria nesta igreja, que já não existe, que estaria escondido o grande tesouro dos Templários, o Santo Graal e a Mesa de Salomão. Mas isto são histórias que se contam.

Aliás, da América começam a surgir muitos visitantes interessados nos Cavaleiros Templários. Aqui fazem a visita e depois podem ir ao Centro de Interpretação Templário onde têm mais informação e mais científica.

Na torre central podemos ter a paisagem do Tejo a serpentear os campos. Podemos ver o miradouro da margem sul, um local que o Paulo Lopes afiança como “um dos melhores pontos de observação do castelo”.

 

 

Um “sunset” a meio do rio com cenário medieval

18:00 saímos do Castelo de Almourol com a mente a fervilhar sobre aqueles tempos e sobre os Cavaleiros Templários. Sobre Gualdim Pais e sobre as lendas que existem desta ordem que desapareceu por ordem do Papa Clemente XIV.

De volta ao “Ninfa do Tejo” reencontramos o Filipe Bento, que já nos aguardava no rio. Entramos e o barco tem música, calma. Tocava Pink Floyd. O Filipe começa a manobrar a embarcação solar. Vamos ao centro do rio, ladeamos o Castelo para que a Carolina Ferreira pudesse fazer mais alguns registos fotográficos e, depois, vamos para uma posição em que temos um por do Sol e o castelo como cenário.

É aqui que ficamos a contemplar a paisagem histórica e natural. Entre dois dedos de conversa sobre o Castelo e os visitantes, cada vez são mais, o Paulo começa a preparar a degustação num “sunset” no rio. Na mesa estende uma toalha. Coloca um suporte com guardanapos, um pote com frutos secos, um cesto com pão e tostas, um prato com queijos e um outro pote com doce de abóbora, este caseiro. Uma garrafa de vinho rosé e dois flutes. É a seguir que o Filipe e o Paulo nos dizem que se temos a reportagem feita é o momento de nos sentirmos uns verdadeiros turistas. Os produtos são regionais e o doce de abóbora que é uma delicia.

O Filipe explica que há quem procure os serviços apenas para o passeio: “Já tivemos aniversários, despedida de solteiro (…) e apenas grupos que pretendem ficar até ao anoitecer”. E acrescenta “Na próxima quinta-feira, temos um grupo de 8 pessoas que querem fazer o “sunset”. Já aqui ficamos até às 11 da noite”.

A nossa visita ao Castelo de Almourol na “Ninfa do Tejo” terminou depois das 19 horas, três horas depois de ter começado.

Despedimo-nos do Filipe e do Paulo. Dos 12,5 aos 17,5 euros por pessoa, pode ter uma tarde fantástica entre o ambiente de um barco movido a energia solar, um passeio na natureza, uma visita à história e às lendas dos Templários e terminar num pequeno lanche com sabor a qualquer coisa, tipo, cinco estrelas. E fica ali, na Barquinha, com saída do Cais de Tancos.

Reportagem de Jerónimo Belo Jorge

Fotografias de Carolina Ferreira